quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ele


Abriu a janela. Lá fora a neblina matinal cobria o jardim, as árvores, as casas. Ouviam-se vozes, carros, movimento, mas não se via ninguém. Apenas uma névoa acompanhada de uma morrinha chata, húmida e fria. O olhar parou. Na mente não havia nada. Apenas uma névoa, uns rasgos da noite anterior. Teria sido apenas um sonho? Passou a mão pelo rosto, num gesto cansado, atordoado, isolado e acima de tudo perdido. O frio e a humidade infiltravam-se no seu corpo esmorecido. Sentia arrepios. Voltou para a cama. Talvez se dormisse mais um pouco o nevoeiro passasse. Talvez acordasse e tudo estivesse na mesma, talvez nada tivesse mudado. O corpo enrolava-se no cobertor e sentia um certo conforto. Mas flashes iam e vinham.  Abriu os olhos fitando o branco do teto.

Tinha sido tudo tão rápido. Gravou o rosto dela olhando para ele. Ali, naquele olhar morava o amor. Transbordava o carinho e a amizade. Não eram necessárias as palavras. Estava ali o que ele sempre procurara. Ela estava ali e era real e era dele. Encaixavam na perfeição. Aquele olhar ficou preso no tempo. Aquele sorriso gritava um amo-te ensurdecedor que ainda ecoava nos seus ouvidos. Isso e o estrondo que houve em seguida. E num segundo o olhar dela ficou vazio.

O vazio daquele teto. O vazio do olhar dela. Piscou os olhos. Não era esse olhar que queria recordar. Não. Queria o outro. Temia esquece-lo.


Agora tudo é vazio.

Não faz sentido passar a vida a odiar. Não faz sentido invejar. Não faz sentido arreliar. Não faz sentido atormentar. Não faz sentido dificultar. Não faz sentido criar obstáculos. Não faz sentido atirar palavras cravadas de ódios, de raiva, de sentimentos espicaçados pelo momento, pelo tormento. Não faz sentido, porra.

Perdoar. Esquecer. Amar. Viver o dia de hoje. Amar. Sorrir. Dar a outra face. Podemos não ser queridos de alguns, mas somos amados por muitos.


Por esses muitos levantou-se da cama. Sentiu que as mãos deles o puxavam para a vida. Saiu. Ali, ao seu lado estavam os abraços sentidos, o carinho afetuoso e verdadeiro. Ali estava uma luz e ele ia segui-la.


Mais tarde percebeu. O amor faz-nos ver o dia. O amor dissipa as sombras que aparecem nas nossas vidas, tornando-as imperceptíveis,  insignificantes.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

É o fim do mundo!


Dizem que o mundo caba amanhã. E acaba mesmo. Não é treta, não é apenas uma teoria maluca do povo maia… é verdade. Acreditem mesmo. É verdade!

O mundo acaba amanhã. Já hoje acabou. E depois de amanhã também acabará. O mundo acaba de cada vez que alguém de quem gostamos muito se ausenta, ao ponto de nos esquecer. O mundo acaba de cada vez que um olhar nos diz que ali já não há amor, só piedade, compaixão. O mundo acaba quando uma mãe segura nos seus braços uma criança inanimada. O mundo acaba quando sabemos que jamais poderemos olhar nos olhos, trocar palavras com alguém que já partiu. O mundo acaba quando descobrimos que não há cura para aquela doença e que o fim está próximo. O mundo acaba quando o desespero toma conta de nós, quando os nós da vida são tão apertados que nos sufocam e enforcam. O mundo acaba…. e aos poucos parece que não conseguimos respirar e que por momentos o coração para e o filme da nossa vida passa à nossa frente (cliché típico destas situações)  Todos os dias o mundo acaba.

E todos os dias o mundo recomeça. A respiração volta, primeiro com inspirações profundas, depois expirações de alívio. O coração bate bem devagar, ao ritmo das inspirações, depois, compassadamente ao ritmo do bater de asas da borboleta. É hora! Hora de recomeçar. Sim, o mundo acaba para todos nós em determinada altura. E depois recomeça. E com ele, nós também!

E que o mundo acabe mesmo. Que as tão tradicionais resoluções de ano novo sejam levadas a sério. Que o mundo acabe para que possamos valorizar aquele que está ao nosso lado sempre, que nos mantém em pé e que nos acompanha sempre. Que o mundo acabe para que possamos entender a importância de estar e de partilhar momentos com aqueles que são nossos (amigos, familiares, queridos). Que o mundo acabe para que possamos entender que há sonhos que não devemos adiar. Que o mundo acabe aqui e agora para o possa surgir um mundo melhor. Um mundo onde as mães não matam os filhos, um mundo onde os políticos são pessoas sensatas, um mundo onde as crianças são bem cuidadas, protegidas, acarinhadas e amadas, onde os adultos são pessoas razoáveis e justa. Era preciso que o mundo acabasse mesmo.

Que acabe, então, o mundo!

Mais de mim...


São algumas as vezes que me inquiro sobre a razão de colocar palavras no papel. Do mesmo modo que batemos o pé ao ritmo da música, do mesmo modo que bebemos água quando temos sede, do mesmo modo que sorrimos ao ouvir a riso da criança, assim me saem as palavras. São pedaços de mim que me fogem e se atiram contra o papel. E eu deixo-os ficar por lá… expondo parte daquilo que sou, revelando parte deste mundo que nem eu ainda conheço, deste mundo baralhado e confuso como um dia de nevoeiro. Perco-me cá dentro, procuro o farol mas não encontro a sua luz e vagueio em mim, percorro diferentes caminhos, procurando não sei bem o quê. E será que quero encontrar? Encontrar-me?

Há nos dias uma razão. Há uma missão em nós. Não quero da vida um sentido. Quero todos os sentidos possíveis. Quero tudo o que me faça sentido. Tudo o que me faça sentir. Tudo o que me faça nascer uma e outra vez. Morrer e nascer uma e outra vez. É na dor, na desilusão, no abalo que nos encontramos. Ao renascer, ao buscar nova luz, que encontramos sentimentos novos, decisões novas e novos sonhos.

E há dias em que me canso de mim. Quero sair deste corpo, desta mente. Quero ser diferente, quero descansar deste eu desassossegado… Ser apenas. Afinal para quê procurar o farol? Por que razão tenho de encontrar sentidos e de me encontrar? Ser. Viver o dia. Passar pelo dia sem grandes expetativas, sem desilusões, sem conquistas… só passar…

Mas há mais em mim. E este ser não sossega. Quero mais de mim.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Brilha, brilha lá no céu!


Olho a minha árvore de Natal, cheia de luzes de várias cores que piscam incessantemente, com bolas vermelhas polidas, bolas vermelhas com motivos douradas, bolas vermelhas foscas, bolas vermelhas rugosas, laços dourados, fita dourada e mesmo no topo a estrela que dá vida a todo o verde artificial da árvore.

Noutros tempos íamos de podoa na mão escolher a melhor árvore. Não podia ser muito grande, nem muito pequena e os ramos não podiam ser muito assimétricos. Colocava-se dentro de um balde cheio de areia que depois era forrado a papel. Acho que ainda sinto o cheiro do pinheiro misturado na areia e o papel meio húmido de estar guardado há um bom tempo. Os ramos eram enfeitados com luzes, duas ou três gambiarras com diferentes formas, de diferentes cores que se fundiam de uns anos para os outros e substituíam-se à última da hora. Havia bolas de várias cores, estrelas, bonecos e mais o que se achasse engraçado… também havia chocolates, mas não duravam até ao Natal. Por fim colocavam-se as fitas coloridas que se espalhavam por todo o lado. Colavam-se botas e fitas nas paredes subindo às cadeiras e como que se sentia já o cheirinho das filhoses, das rabanadas e já se vislumbrava o alguidar gigantesco em cima da mesa de pedra cheio de massa alaranjada escaldada pela água. E partiam-se as nozes e escolhiam-se os pinhões e as passas e a lareira estava sempre acesa e a chama aquecia os corações e amolecia os humores.

As prendas já tinham chegado. Sabíamos bem. Corríamos a casa numa caça ao tesouro desenfreada. Quase sempre o encontrávamos estragando a surpresa do dia. Mas recordo uma boneca, talvez, numa caixa grande (o que eu queria era bonecas em caixas rosa e grandes) em cima do fogão a lenha, numa casa que já nem me recordo bem como era. Recordo a pulseira numa caixinha aprumada e muito requintada (até poderia não ser, mas para mim era assim), recordo a boneca de pano azul….

São muitas as memórias que o tempo apagou e que gostaria de ter guardado na minha caixinha da vida, para poderem ser revividas uma e outra vez. Ficam-me os cheiros, as vozes, as cores, os sabores… e fica aqui bem guardado, aqui neste canto, uma memória que resistirá à borracha implacável do tempo. Aquele olhar terno e sofredor de quem perdeu um filho, mas que está grato por ver a restante família a comemorar mais um Natal. Havia sempre uma lágrima teimosa que nos lembrava que faltava ali alguém. Aquela mãe nunca esquecia, nem nunca escondia, aquela dor agonizante de passar um Natal sem uma das suas crias.

 Os Natais vão passando. A árvore agora é artificial. As broas já não são feitas no forno a lenha. Aquele canto do sofá já não está ocupado. As luzes continuam a piscar ao ritmo das saudades que sinto de ti. Agora és tu que fazes falta aqui. Mais um lugar ocupado pela saudade e pela memória.

Brilha, brilha lá no céu!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

life is short


As luzes azuis entram pelas janelas anunciando a tão esperada espera. O coração bate apressadamente, as pernas correm ganhando vida própria e tudo parece girar, tudo parece ser rápido agora. Perde-se a noção de tempo, de hora, de saber estar, do que dizer. Nada mais interessa. A efemeridade da vida passa mesmo à nossa frente provando-nos que esta é a nossa única oportunidade. Não há second chances, não há… é esta a única vida que teremos.

Chegámos...nos corredores olhares vazios, olheiras profundas, semblantes carregados, bocas cerradas caminham a passos lentos. Sei bem no que pensam. Sei bem que doença vai naqueles corações. Sei que o labirinto do espaço é idêntico ao labirinto das nossas mentes. Afinal parece que estamos numa montanha russa, cheia de altos e baixos que nunca mais para. Já estamos nauseadas, cansadas, com o corpo partido.

Os telefones tocam, as preocupações tomam forma. Há lágrimas em alguns rostos. Dentro dos quartos é o corrupio: termómetro, brufene, panasorbe, amoxicilina, corticoide, máscaras, oxigénio, auscultar, ver de novo se tem febre, aumentar o oxigénio… e o telefone continua a tocar… Novos desenvolvimentos. Mais isto, mais aquilo…. E entre uma volta e outra na montanha russa seguro-me ao apoio com mãos de ferro…Há preocupação nas vozes que desaguam no meu telefone, há desejos de rápidas melhoras. Meus apoios aos quais me amarro. Não há palavras que lhes agradeçam o bastante, meus amigos, que orgulho tenho destes amigos que estragam as suas rotinas para estarem aqui para nós. São as vossas palavras, os vossos gestos que me seguram, me mantem de pé e que não deixam as lágrimas tomarem forma.

Mas a Pipa sempre nos ensinou que temos de ser pacientes, dar tempo ao tempo. A Pipa sempre insistiu em nos mostrar o que é importante na vida e quem é importante para nós. Mostrou-nos que não há lugar para ter vergonhas ou orgulho para pedir ajuda. E o fantástico foi descobrir as pessoas lindas que nos acompanham nesta vida, que nos amam como somos, que são bengalas ondo nos podemos apoiar.

Life is short… parece dizer cada inspiração dela… É sim meu anjo, estaremos sempre aqui a segurar-te nos momentos difíceis, sabendo que espiritualmente outros nos seguram também….

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

História de Natal


Era uma vez….

… uma pulga saltitona que vivia no Pompom e era muito comilona.

O Pompom era grande e felpudo que nem se apercebia do intruso abelhudo.

A pulga saltava e saltava para tudo poder ver.

Às vezes sentia-se só, sem nada para fazer.

O Pompom nem sequer a conhecia.

Com a pata coçava a comichão que sentia.

Nas vésperas do Natal, a pulga chorava.

Não tinha ninguém, só do Pompom gostava.

Ao Pompom queria contar que ali vivia.

Mas como poderia dizer o que sentia?

Então um dia, pensou e decidiu.

Tanto saltou, tanto saltou que o Pompom algo sentiu.

E lá estava a pulga na ponta do seu nariz.

E estava tão feliz.

O Pompom pôs os olhos em bico e quase que lhe deu um fanico.

Com um chapéu vermelho ela dançava e o Pompom só gargalhava.

E assim os dois amigos ficaram.

E na noite de consoada se juntaram.

Nessa noite uma aventura viveram.

Da qual nunca se esqueceram.

Por volta da meia-noite em ponto, ouviu-se alguém a contar um conto.

Era o barbudo do Pai Natal.

Com uma voz grossa dizia uma coisa especial.

Que a amizade verdadeira, bonita e traquina,

não se encontra por aí em qualquer esquina.

Que entre uma pulga e um cão, a amizade vem do coração.

E por isso felizes vão ser, porque das diferenças não quiseram saber.

A assim ficou a amizade selada, e até hoje não foi quebrada!

 

Ana Pinto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Voluntariado


Voluntariado não e para qualquer um. Voluntariado é para aqueles que são capazes de descolar o nariz do umbigo e ver o mundo.

Dizem por aí que há crise, para mim a maior das crises é a crise de valores que existe. Tanta corrupção, tantos são os que trepam, que pisam e que assim são felizes, à maneira deles, assim o pensam.

Quantos são os capazes de se desapegarem de si para dar aos outros? Certamente não o fazem porque não sabem que “O verdadeiro caminha da felicidade é dar felicidade aos outros”. E é. Experimentem…. Não só à vossa família, não só ao núcleo fechado de amigos, é aí que se deve começar ( O dever do escuta começa em casa), mas alastrem isso às pessoas que não conhecem. Partilhem o vosso sorriso com a senhora da caixa do supermercado que está a ter um dia difícil e sintam o calor do sorriso retribuído (o escuta tem sempre boa disposição de espírito), saibam o que é mudar o dia de alguém para melhor. É tão simples. Deem um abraço à colega que bufa com tanto trabalho, que não sabe para onde se virar e que tem tendência a estar sempre a refilar. E verão o sorriso, o reconforto e a calma. O sentimento de que tudo se resolve.

Voluntário é aquele que dá mais, é o que deixa sempre um pouco de perfume por onde passa, o que leva um pouco de si mesmo em vasos de barro para iluminar outras vidas. Voluntário é o que vê no pequeno gesto a grandeza. É aquele que sabe que juntos seremos o que quisermos e que sós não vamos muito longe. Voluntário é aquele que faz a diferença entre os outros, é o que se destaca pela disponibilidade e pela prontidão. Nem sempre é entendido como tal, nem sempre a pureza dos pensamentos, das palavras e das ações são entendidas pelos corações menos voluntários, menos dados talvez. Sim, porque ser voluntário passa por ser um pouco ingénuo, porque ser voluntário é acreditar que se pode mudar o mundo para melhor. E pode-se.

Desapega-te. Sê voluntário. “Se a tua voz trouxer mil vozes para cantar, vais descobrir mil harmonias belas que ao céu hão de chegar. Fica mais rica a alma de quem dá….”

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Saio de casa. A lua brilha sorrindo para mim com a sua companheira estrela mesmo ali ao lado. O frio toca-me no nariz como que a dar-me os bons dias. A música marca o ritmo dos meus passos. Aos poucos as pernas ficam geladas e as mãos transpiradas. O ritmo aumenta e os meus pés parecem mover-se sozinhos, sem comando.

Penso em pessoas, na vida, na efemeridade, na inveja, no egoísmo, em pessoas.

Ontem cruzei-me com um casal caído no chão. A senhora sentiu-se mal e caiu fazendo tombar o marido. O senhor estava com cara de quem se tinha magoado bastante mas levantou-se sozinho. Juntos levantámos a senhora que estava magoada não sei se mais fisicamente ou se apenas psicologicamente. As lágrimas escorriam tímidas pelo rosto magoado pela vida. Ali vive o sofrimento, ali está uma pessoa sem forças e sem vida. O senhor justifica-se que é da medicação que a esposa anda a tomar, provoca tonturas e que é um pau de dois bicos (palavras dele). Dizia ele que se a víssemos há dois dias era uma pessoa cheia de vida. Mas ali só vivia a apatia.  

O dia agora clareou. Ao longe estende-se um manto laranja ainda banhado por um ténue nevoeiro. Não me perece que vá ser um dia visitado pelo sol.

Cruzamo-nos todos os dias com pessoas que têm falta de caráter, que passam por cima de nós, que nos magoam, que tratam de tornar o nosso dia num novelo de lã enrolado do qual não nos conseguimos libertar. Pessoas que sugam a nossa boa disposição, que sugam o nosso eu e nos nossos olhos fica a apatia, passamos a ser um saco que tenta estar de pé a muito custo. Mas tombamos e levamos os outros connosco, levamos os que amamos a tombar também.

Estou a poucos passos de casa. O dia está cada vez mais claro.

Sabem que mais? Não quero tombar. Este saco há de encher-se com amor, com este carinho bom que só as boas pessoas têm. Neste saco não cabem as invejas, as hipocrisias e as miudezas, podem encher os vossos sacos com elas…

O dia raiou, e eu falo do meu dia aquilo que EU quero!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

8 da manhã


8 da manhã. O frio entranha-se no meu corpo. O café da manhã desperta-me para um novo dia na escola. Cá fora alguns colegas trocam as primeiras palavras do dia. Eu sou apenas uma contratada e são muitos os dias em que me sinto uma professora menor. Menor experiência, menor de idade, menor muitas coisas.

Chego à sala dos professores e há uma clara divisão. Troco palavras com aqueles que me conquistaram e que conquistei e que certamente jamais esquecerei. Toca a campainha. Pego no livro de ponto e sinto-me viva, realizada, a viver o sonho de uma vida. Dirijo-me ao pavilhão, subo as escadas e entro na sala que se vai compondo. E ali estou eu. No meu mundo. Certa do que faço, a dar tudo o que tenho, a fazer aquilo que sei melhor. E o esforço do trabalho a dobrar compensa. Eles percebem, entendem, ficam fascinados com as novidades, querem mais. E eu sorrio e sei. Sei que é aquele o meu lugar.

Mas o ano termina. As (algumas) colegas olham de lado desconfiadas, certas de que sou uma novata na coisa. Os alunos já suspiram com algumas saudades, sei que sim. Eu sei que não será fácil voltar.

Ficou um sorriso no rosto deles e no meu. Ficou o sonho realizado. Ficou parte de mim. Ficou o meu melhor. Sei que os jogos os fizeram vibrar e lutar por saber mais. Sei que o desafio de os fazer escrever de 15 em 15 dias fez deles melhores escritores e melhores leitores. Sei que a minha proximidade com eles nos fez bem, respeitámo-nos. A caixa das histórias fazia-os sonhar.

Ali ficou a professora que sempre quis ser. Ficaram as palavras daquela mãe que ingenuamente pediu que eu ficasse no ano seguinte. Ficaram as doces palavras da sapientíssima Alda congratulando-me pelo trabalho apresentado. Que doce vitória para um ano tão complicado.

Dar aulas de novo?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Deixa-me ficar no teu abraço. Neste terno, mágico, infindável momento. Deixa-me demorar em ti, contigo. Se soubesses o bem que me faz este abraço! Sinto o teu perfume e colo os meus lábios a ti. E fico lá. E quero ficar por lá uma eternidade. Em mais nenhum abraço me sinto em casa, me sinto em mim. És o meu lar, o meu ninho. É em ti que descanso o dia.

Esse abraço. Se soubesses o bem que me faz! Embrulho-me no teu corpo encontrando o calor do amor. Sossego a mente e esqueço. Queria poder parar-me e agarrar-me a esse abraço e ficar por lá.
 
 

domingo, 28 de outubro de 2012

Tempo

O tempo corre. Será que ainda não perceberam que o tempo corre? Calçou as suas melhores sapatinhas e saiu porta fora, depois de a bater com um estrondo que me fez encolher de medo.
O tempo corre. Não está à vossa espera. Ele lá vai lançado sem esperar, sem parar, sem sequer importar contigo ou contigo ou comigo.... ele vai. Ponto.

Mas não. Lá continuamos, tu e eu, a pensar que o dia vamos ter tempo e que o tempo tudo resolve e que um dia vai ser o dia. Mas qual dia qual quê... não sentes o vento a bater no rosto? Não sentes o frio a entrar no corpo? Não sentes as folhas a estalar debaixo dos teus sapatos? Não? É o tempo. É ele... que passa, que vai.

Agora é o dia, agora é o momento. Agarra o tempo. Toma tu conta do teu tempo... não deixes que ele te escape e não te deixe ser. Vai. Sê tu. Agarra-te. Lança-te. Faz-te feliz. NÂO QUERO SER PRISIONEIRA DO TEMPO. Quero libertar estas amarras.

Quero ver a flor e cheirá-la, quero sentir os pés na areia, quero ver o amanhecer, comer pipocas e contar anedotas, quero rebolar no chão a rir, a amar, quero ser dona deste pouco tempo que tenho na vida ( não vivemos para sempre, sabes?).

Já basta  tempo em que a doença nos derruba, basta o tempo em que as perdas nos levam tempo. Não quero gastar tempo. Como é que tu queres gastar o teu tempo? Imagina uma bolsa cheia de moedas. Assim é o tempo. Gasta-o onde vale a pena. No que te faz sentir viva, no que te arranca sorrisos....

Vou ali, fazer render o meu tempo.... E tu?

sábado, 6 de outubro de 2012

Amanhecer


Vagueio pelas ruas ruidosas, onde os seres se movem com rapidez. O tabaco dos outros esbofeteia-me e as minhas mãos enterram-se cada vez mais nos bolsos. Os meus pensamentos andam dispersos e não consigo focar um problema. São peças soltas que não se encaixam, são palavras que não se entendem, cordas puxadas para lados opostos…

Os meus olhos focam o chão. Não me quero cruzar com ninguém. Não quero ver nos outros o que há em mim. Quero-os longe, afastados. Mas sinto-lhes os cheiros e ouço os passos. E por dois segundos fecho os olhos.

O cheiro é o da primeira terra molhada depois de um dia de calor insuportável, sinto na minha pele a frescura da água que me escorre pelo rosto, sinto o sabor do nada, o sabor da terra, o sabor da chuva. Há arbustos, árvores e relva. E as mãos escapam-se dos bolsos e abro os braços e olho o céu cinzento e deixo que o sorriso se liberte de mim e deixo-me ir.

E caio. O buraco é fundo, é frio, tem água que me cobre os pés… olho para cima e grito. Peço ajuda com toda a força que tenho. Mas vão passando, espreitando curiosas algumas até divertidas.

Está frio. Não consigo sentir os pés. Não há lágrimas, apenas lamúrias.

Lamento o tempo perdido em busca de um sonho que nunca concretizarei. Lamento o esforço que foi feito para equilibrar o que nunca foi equilibrado. Lamento tudo o que dei de mim. Em vão. Para nada.

Mas sou mais que isto. Mais leve que um corpo, mais sã que um ser humano magoado, enlameado. E sinto a força que há em mim. E em mim o amor transforma-se em magia. E enlevo-me no ar. E num balão de ar quente persigo-te, luz. Vou em direção a esse amanhecer.

Quero ver-te nascer.

Quero prender-te em mim e fazer-me feliz.

 E amanhã, quando a luz surgir de novo, fazendo raiar um novo dia, lá estarei para ser feliz de novo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sou um 15


Sou um 15. Um meio. Não sou 10, nem sou 20… apenas um 15. Uma medida que me classifica. Sabes, um 15?

 

Enquanto vagueio pelas ruas, olho distraidamente as pessoas. Penso em classifica-las. Tu aí, tu és um 12. Mas tu, fogo, um 18, sem dúvida. E agora tu, que estás a ler esta treta de texto, és um 10. Quero mandar as normas e as classificações para bem longe. Lá para as terrinhas delas. Quem as inventou? Quem disse que tinha de haver um padrão? Padronizar, uniformizar, estandardizar. Porra para tanto ar. É mais fácil assim? Pois, sei que sim. Assim me exige a profissão. Leio, classifico, escrevo a roxo no local destinado para o efeito. A vermelho não. Não gosto de ser normal.

 

Quero ser única, quero ser eu, sem normas, sem regras. Assim como sou. Não tenho que ser como os outros, não tenho que ser ovelha branca no rebanho, nem ser a ovelha negra, porque essa também é uma norma. Todos querem ser a ovelha ronhosa, porque diferente. Quero ser eu, porra, sem ser negra, branca ou ronhosa…. Eu, percebem? Eu.

 

Não sou um número, não sou um nome, sou mais que isso, eu sei que sim. Estou cheia de mim, toda eu sou eu. Tenho em mim sonhos, ideias, sentimentos, beleza e ambições. Tenho em mim um pouco disto e daquilo, muito de ti e de ti e mais um pouco daquele. E tudo isto me vai enchendo, como se enche um balão de ar quente, dando-me forma, e ar para voar, para me perder por esta vida, saboreando as rajadas de vento e o frio na ponta do nariz.

 

 

Não sou um corpo, ou um rosto, sou eu. Consegues ver? Como diria Saramago, então repara. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Já não há princesas


- Se ela é a mulher do teu filho, tens de estar com ela, mesmo que não queiras. A escolha foi dele, mas tem de ser assim, fazes o esforço.

- Pois, eu sei. Mas não é fácil.

- Sabes, é que hoje em dia já não há princesas.

O ar encheu-se daquele perfume, que, convenhamos, tudo tinha a ver com o ambiente que me rodeava. O perfume das senhoras bem, um aroma demasiado doce, que enjoa, junto com o cheiro ativo da laca de cabelo usada em exagero. Senti ainda um rasto da base perfumada, que escorria pelo rosto à custa do esforço de se pavonearem pelas ruas da cidade debaixo de um calor insuportável, com uma maquilhagem demasiado carregada para a idade. Os pés inchados dentro do sapato de salto mediano marcavam os passos decididos, de quem fala com a razão na ponta da língua, a razão e a espada. Já não há princesas? Mas afinal quem é que quer princesas? Pobres senhoras. Vivem ainda neste mundo, no mundo dos alfinetes de peito, das máquinas de escrever com fita, dos dedais de porcelana, dos pratos decorados com o rosto da Lady Di, das rendas, das taças de estanho, dos castiçais, dos bancos altos para por vasos, das loiças azuis, floreadas. Acreditam na dona de casa perfeita, aquela que vive acorrentada à cozinha e aos filhos, que não almeja muito, apenas o conforto de viver sem chatices, que mantém o sorriso perfeito no rosto, que nunca discute, que nunca pede nada, que está ali, com o ar das bonecas de porcelana desta feira de antiguidades. Bonitas, impávidas e serenas.

Os tempos são outros. As mentalidades outras. Viver não é sobreviver, viver é apanhar o gosto da vida. Não há correntes nem obrigações, há caminhos a percorrer, a dois, ou sós.  Os casamentos nem sempre são para sempre, e o facto de não o serem não é o fim do mundo, é o fim de algo, o começo de outra coisa qualquer. Faz parte do percurso da vida. Não, não há princesas, e depois? Ainda bem.

Eu espero pela mulher que me queira levar ao altar, sou velho, eu sei, mas há de surgir a mulher certa. Aquela que não queira parecer uma princesa, contente comigo vestido, sou antigo e nada tenho que ver com estes tempos modernos.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ser mãe...


Ser mãe. Ser mãe implica abandonarmo-nos um pouco, pormo-nos de lado para ser… mãe. E quando alguém diz que está de esperanças, há de imediato uma voz que lhe diz: “Prepara-te: noites mal dormidas, birras, vómitos, varicelas, diarreias, dores de ouvidos, consultas, almoço, jantar, lanche, roupas, birras.” É verdade. Há isso. Mas ninguém refere o outro lado, aquele que é difícil de descrever. Sim, quando se sente o cheiro de um recém-nascido há uma nuvem de bondade que paira sobre nós, quando o aconchegamos nos braços somos protetores do mundo, do tesouro encontrado pelo Ali Babá.

Ali estava ela, com a sua cria. No seu rosto vivia um sorriso permanente, mesmo tendo os lábios relaxados. Contou-me a sua história.

Até às 27 semanas tudo tinha corrido normalmente, sem enjoos, sem incómodos. Era tudo tão natural. O corpo modificava-se e lá dentro a vida brotava. A barriga cedia aos movimentos do bebé e a mão da mãe procurava tocar-lhe para que sentisse o seu calor, o calor do amor cego, incondicional. Nessa altura avisaram-na que a menina não estava a crescer. Como uma erva daninha que cresce no mais graciosos jardins, assim nasceu um medo. Às 32 semanas decidiram fazer cesariana. É então que tudo fica escuro, diz-me ela. Há um caminho desconhecido à frente e não sabemos que passos dar. Não depende de nós, não está nas nossas mãos, e temos de deixar acontecer e esperar o melhor.

A menina ficou na incubadora, com menos de 1, 50kg. Cabia no bolso da bata das enfermeiras. Entre ela e a mãe uma barreira de vidro e um círculo redondo onde cabia uma mão que lhe afagava muito cuidadosamente a cabecinha do tamanho de uma laranja lá do quintal. O corpo da mãe estremecia ao apito das máquinas, ao corrupio dos médicos e das enfermeiras. Não lhe soube o cheiro durante uns dias. Contou todas a gramas e todos os pequenos mililitros de leite. Esteve horas a fio sentada ao seu lado olhando apenas, e de noite, já em casa, chorava a sua ausência. Festejou todos os aumentos de peso, festejou a saída de cada fio preso ao corpo da menina, festejou a primeira roupa que lhe vestiram, festejou a dura luta que levou a menina a pegar no peito, e a viagem de regresso a casa.

Olho nos seus olhos. Quero aquela réstia de arco-íris em mim.


domingo, 22 de julho de 2012


Pego na chávena do café e levo-a aos lábios que se esticam procurando sorver o gosto da fugaz meia hora de pausa. Batem gotas de água na vidraça, lançadas pelo vento impaciente e revolto que teima em perturbar as pessoas que correm procurando um abrigo. Abrigadas do vento, da chuva, de si mesmas, do que as perturba? O café está cheio. Olho em volta vertendo novamente um pouco de café na minha boca sentindo o deleite daquele gesto tão repetido. Há olhares perdidos, futuros incertos, medos escondidos em olhares apagados. Há paixões escondidas, olhares cúmplices, olhares traiçoeiros. Há um sorriso que se ergue e que se dirige à minha mesa. Finjo não perceber. Senta-se à minha frente.

- Então Gustavo? Como tens passado?

- Frederico? Nem te estava a reconhecer, pá. Como estás? Já não te via há uns anos.

Lembro-me bem do dia em que conheci o Frederico. Deu-me um murro no nariz porque eu lhe roubei o lugar no autocarro a caminho da escola. Era o meu primeiro dia de aulas, sabia lá eu que o lugar estava marcado. Mas depois desse dia foi um irmão mais velho para mim. Tomava conta de mim na escola assegurando-se de que ninguém se metia comigo. Partilhámos as dores, as conquistas, as brincadeiras, as aventuras, algumas namoradas, fizemos girar a terra debaixo dos nossos pés. Mas, na busca do sonho, rasgaram-se caminhos diferentes para nós. O tempo, os novos amigos, as novas aventuras, encarregaram-se de nos fazer esquecer.

Aqui estava ele, de novo, à minha frente, com o mesmo sorriso no rosto e o mesmo brilho no olhar. Estou certo que da sua boca foram proferidas inúmeras palavras, na tentativa de fazer uma síntese à sua, certamente, fascinante vida. A minha expressão facial acompanhava, com uma falsa emoção, o seu discurso, no entanto, os meus olhos seguiam-na. Tinha acabado de entrar. Trazia um rasgo de calor ao abrir da porta. Os lábios rubros rasgados pelo olhar profundo e sensual. O lenço verde ao redor do seu pescoço trazia cor aos acinzentados seres ali presentes. Sempre, aquela hora, cruzávamo-nos neste café. Aquela meia hora era para ela, o meu olhar repousava nela e eu fantasiava. O ritmo dos seus passos eram uma balada do Michael Bublé. Parou ao meu lado. Os meus olhos não descolavam dela.

- Gustavo, esta é a minha esposa. Sónia, este é o Frederico.

sábado, 14 de julho de 2012


- Mateus comunicações, bom dia. Em que posso ajudá-lo? Só um momento, vou passar a chamada.

Estou farta. Todos os dias as mesmas discussões, as mesmas palavras aguçadas que se lançam em velocidade pelo ar, que magoam, que ferem. Os gritos que ecoam de uma divisão para a outra. Bato com a port,a com toda a minha força e desço as escadas do prédio. Os vizinhos dizem os bons dias de cabeça baixa, olham-me com constrangimento, mais envergonhados do que eu, que, revolvida do avesso, fora de mim, não quero saber se ouvem ou não os palavrões bramidos, sofridos e sentidos que profiro.

- Mateus comunicações, bom dia. Sim chefe, já lhe ligo a confirmar essa situação. Até já.

Todos os dias me acusa de não fazer nada em casa. É porque não limpo o pó, é porque a roupa não está passada, é porque não faço o jantar. Porque não vou às compras, porque só faço despesas desnecessárias (não vivo sem o batom, sem a mala a condizer com os sapatos. E as unhas de gel, como posso viver sem elas?). Não posso sair para tomar café com as amigas sem ouvir uma palavra de desagrado, não posso sair aos fins-de-semana sem que me acuse de ser leviana, ordinária, vulgar.

- Mateus comunicações. Bom dia Sr. Jorge, como tem passado? Queria confirmar a encomenda feita ontem.

Mas hoje vou por um ponto final nisto. Vou-lhe ligar. Não posso dizer-lhe cara a cara que já não vou viver mais com ela, porque vai fazer aquela cara de angústia que lhe conheço tão bem. Aquela cara de mãe que sabe que a filha não tem capacidade para viver sozinha e arcar com as despesas. Vai-me dizer que estamos em época de crise, que eu sou tudo o que ela tem. E eu vou-lhe gritar aos ouvidos que a minha crise é viver com ela e ela que vá tomar chá com as amigas se quer companhia. Ligo-lhe. Assim não me demovo.

- Sim, Sr Jorge, é isso mesmo. Aguardamos então a entrega. Bom dia.

É agora, vou-lhe ligar.

- Estou sim? Há umas quantas coisas que lhe quero dizer, nem ouse responder-me. Ouça apenas. Estou cansada desta situação. Tento dar o meu melhor e nunca reconhece isso. Quero por um termo a esta situação.

- Não há problema Joana, se o seu trabalho não a agrada, está despedida.

- Chefe?

sábado, 7 de julho de 2012


O riso dela quebrou o silêncio. Virou costas e saiu.



Durante uns segundos pareceu-lhe ouvir a velha cassete de vídeo a fazer um rewind: um beijo intenso e apaixonado, dois corpos juntos numa aflição, mãos dadas ao luar, estrelas contadas deitados na areia, juras eternas, olhares fundidos, risos graciosos, autênticos. Eram tão jovens nessa altura.



Fast forward: Onde andavam aqueles enamorados, apaixonados pela vida, um pelo outro? Cheios de vida, de objetivos, cheios de si mesmos. Nos últimos tempos os beijos são meros encostar de lábios que cordialmente se cumprimentam. Os corpos raramente se encontram, dessincronizados, egoístas, desapaixonados. As conversas são ladainhas ensaiadas pelos tempos, são frases atiradas, lançadas para os ouvidos um do outro sem qualquer laivo de sentimento, desprovidas de cumplicidade. No ar a nuvem negra do fatalismo. Ambos sabiam.



Rewind: Naquele dia ele vinha com o brilho de outros tempos nos olhos. Falava com ela mas estava distante. Sorria. Mas não era para ela. Ela sentiu. Ela sabia. Sexto sentido? Não. Apenas a argúcia. Conhecia-lhe os gestos, os olhares, a linguagem do seu corpo. Sabia que já não era amada. Já há um tempo que a magia (a tesão) tinha desaparecido.



Play: O telefone tocou. Era ele. Numa voz apagada disse-lhe que queria falar com ela. Conversa da treta. Todo o ser humano sabe o que isso significa. A nuvem negra andava carregada de discussões, de faltas de entendimento, de faltas de sexo. Combinaram encontrar-se.

- As coisas não têm andado bem entre nós. A culpa não é tua. Sou eu que ando estranho. Talvez tenha mudado. Conheci outra pessoa que me fez ver que não sou feliz contigo. Quero que sejas feliz, e eu não sou capaz de te dar essa felicidade.



Ela ouvia-o. Afinal já estava à espera daquela conversa. Sabia que era inadiável. Houve um silêncio prolongado. Ele esperava que ela chorasse, que se agarrasse a ele implorando para ele ficar, para tentar mais uma vez. E ela nada. Só o silêncio.



O riso dela quebrou o silêncio. Voltou costas e deixou-o ali sozinho. Não iria chorar. Não, porque ela queria aquilo. Riu com vontade. Aquelas palavras proferidas por ele eram as mais ridículas que tinha ouvido. Cheias de falsidade e hipocrisia. Ainda bem que acabou, ela estava livre. Livre para viver longe das correntes da relação porque sim.



STOP.

quinta-feira, 28 de junho de 2012


Trac, trac… trac trac… nada… não se ouvia nada.

Insisto mais uma vez. Trac, trac…. Nada…

Ai, que angústia! Os meus olhos são desespero, são irritação, impaciência.

Sim, consigo ver-vos. Melhor que isso, sei quem vocês são. Passam, todos os dias. Falam, todos os dias. Cospem, todos os dias. Fumam, ralham, bufam, vociferam, suspiram, inspiram, expiram, olham...mas não veem. Eu vejo. Eu sei.

Trac, trac… nada

A menina do café, insegura, sem graça, passa. Leva o fumegante na mão, não porque sinta prazer no ato em si, mas porque não sabe o que fazer com as mãos. Se eu lhe pegasse nas mãos mostrava-lhe o que fazer com elas, explorava-a, desbravava-a, desabrochava-a. Fazia dela a gaja do café, segura e cheia de graça.

Trac… trac… nada. NADA! Nada…

Eu sei. Sei do rapaz da mochila vermelha. Todos os dias chega uns minutos mais cedo para que o seu olhar se perca nela, para poder desejá-la mais de perto, tão de longe. Sei delas. Desfazem-se em sorrisos, abraços e assim que as costas se voltam, o sorriso dá lugar ao olhar invejoso e traiçoeiro. Sei. Da viúva que chora o marido sem saber que havia outra família. Sei. A paixão secreta do padre. Sei. Sei, porque vejo.

Trac … trac… Nada.

Ouço-a chegar aos saltitos. Estende-me o braço. Na sua mão duas pilhas. Ela sim. Ela vê-me. Ela sabe-me. Os outros passam, olham com asco para o mendigo. Ela senta-se ao meu lado e aninha a sua criancice a mim.

O meu coração acalma. Agora sim, deixo de os ver. Não quero saber. Só me quero ouvir. Ouvir a minha voz límpida que me transporta para longe dali.

- Vá, põe a música!



Trac.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Com fiança


Com fiança. Sim, com fiança. Há que a possuir como quem possui um belo hambúrguer numa bela tarde de verão depois de um refrescante banho no mar. Sofregamente, com apetite por mais, saboreando cada pequeno pedaço. Mastigando tudo, saboreando, sentido todos os sabores e todas as texturas. Até ficarmos bem cheios, bem satisfeitos, regaladinhos da vida.



Fiança. Sim. Fiando em mim, nas minhas capacidades, nas minhas escolhas, na minha perspetiva. Fiando no saber, no ler, no conhecer, no processar.



Com fiança podemos ser o que quisermos, podemos ir onde quisermos. Podemos viver. Sim viver… não estou nesta vida para ser uma sobre vivente. Quero ser vivente e vivida e quero ser a vida. QUERO SER VIDA!

Que se lixem os agoirentos, peçonhentos, invejentos e tantos mais. Sem fiança, sempre suspeitando, duvidando, questionando… que raios… desapareçam!

Confiança.

Só te quero a ti agora.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teenager

E, num só minuto, revivo todo aquele tempo.
Indecisões, emoções, paixões, desilusões, sentimentos exacerbados, sentimentos ocultos, tempestades em copos de água, amizades perpétuas, ódios profundos, deslumbramentos, ingenuidades, crenças, convicções, verdades inquestionáveis... mais paixões, por este, por aquele, por isto, por aquilo, paixões...
Um minuto… um choro sentido, uma lágrima sofrida, um desespero incompreendido, um ciúme ardente., um amor impossível.
Um minuto… um riso histérico, um olhar apaixonado, um sorriso ingénuo, um soltar de palavras ridículas e incompreensíveis.
Um minuto… e toda a escola, as turmas, os professores, em casa, fora de casa….
Um minuto… a pior inimiga do mundo, a paixão mais ardente, o professor mais detestado, o professor mais cobiçado.
Um minuto… o querer sair de casa, o não suportar os pais, os irmãos….
Um minuto… o mundo a acabar e eu ser a única no mundo que me entende (ou não)…
Ninguém me entende. Num minuto.
E já passaram tantos minutos depois disso.

domingo, 10 de junho de 2012

Palavras


Quero descrever o que anda cá dentro, abafado, espezinhado, sem voz, mas as palavras escapam. Corro atrás delas, tento apanhá-las mas fogem-me por entre os dedos. E finalmente quando uma ou outra ficam, transformam-se dando lugar a palavras completamente diferentes.

 Percorro o dicionário com os meus dedos à procura das palavras certas mas estas sorriem para mim com olhos safados à medida que se ocultam entre as folhas e perco-as de vista e nunca encontro a palavra, aquela, a certa. Mas são tantas, porquê? Por que razão não a encontro? Escapulem-se, esquivam-se e fico perdida, angustiada, danada…

Pego então num livro para me abstrair, para entrar noutra história que não a minha, para me evaporar por uns tempos e viver a vida de outra pessoa. Sento-me descontraidamente no sofá deixando que as minhas pernas pesadas descansem nas almofadas fofas, os óculos pesadamente colocados sobre o nariz e a mente ávida pelo desenrolar da história. Suspiro fundo, fecho os olhos por breves momentos antecipando o momento de prazer que vou ter de seguida. As minhas mãos perdem-se por entre as folhas, acariciando cada página, amando cada palavra. Palavra. Palavras… cá estão elas novamente. Todas juntinhas formando frases imortais, ideias imperecíveis, imagens singulares, histórias que ficarão para sempre comigo. Bruscamente fecho o livro. Os meus óculos são arrancados da cara e o meu corpo ergue-se de rompante e em passos pesados dirijo-me para a rua.

Na minha mente as palavras vão dançando, ébrias, titubeantes, inseguras sem forças… não consigo encontrar a caixa. A caixa que está vazia…. Quero que a minha mente se cale, quero fechar as caixas das palavras, estão desorganizadas, apinhadas, desarranjadas…. Quero uma caixa vazia… uma caixa onde possa começar do zero, onde a primeira palavras seja aquela… a certa.

Volto a casa. Estou cansada, extenuada, sem forças com a mente repleta de tudo e de nada. Sento-me no jardim. Ouço o barulho da rua, e aos poucos as palavras vão-se arrumando, umas a seguir às outras vão entrando nas caixinhas. Todas as caixas estão fechadas. Ouço o mundo, a vida, o burburinho normal de um dia de semana. E abre-se uma caixa… está vazia. A minha mão alcança um lápis e um pedaço de papel….

“Quero descrever o que anda cá dentro…”

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Era uma vez uma princesa


Era uma vez uma princesa

que vivia dentro de um coração.

Tinha um sorriso autêntico, de menina

e um olhar meigo e traquina.

Com vestido singular,

Uma coroa na sua imaginação,

Seus pés descalços brincavam.



Jogava à macaca,

distraída do mundo,

concentrada no segundo,

aos saltitos para trás e para a frente

jogava sem parar...



Esta princesa especial,

não vivia num reino normal.

Reinava no coração da mãe…



A princesa que faz o dia sorrir com um beijo,

que faz nascer o sol com um abraço,

que afasta as nuvens negras com um olhar.

A princesa que põe pasta de dentes na escova da mãe,

que levanta a mana do chão,

que brinca com o balão,

que quer dar o beijo da manhã ao pai,

que faz bolos e bolachas,

que quer saber o porquê e o como

que adora desenhar e pintar

e inventa histórias de encantar.



Ali viverá para sempre,

entre memórias e outra gente,

brincando na sua macaca,

para trás e para a frente.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Mudança


Uma suave brisa soprou o meu rosto. Fechei os meus olhos e deixei-me levar por esta maravilhosa sensação. No meu inspirar vinha o mar, a areia quente e um agradável perfume. Ouço as palavras que me foram ditas novamente, e é como se de repente eu visse de forma mais clara, como se tivesse encontrado os meus óculos de ver cá dentro. Sim, há uma hora para tudo, um tempo para tudo. E sim, é hora de começar novos ciclos.

Todos tememos as mudanças porque nos abalam, porque nos mudam, porque nos privam de algumas coisas, porque faz doer o coração, porque nos magoam. Mas vem aí o novo, o inesperado, a aventura, o recomeçar, a hipótese de renascer, de respirar e apreciar, de abrir os braços para o novo.

Cada dia que passa, cada escolha que fazemos, cada palavra que escolhemos ser proferida, são escolhas nossas, são elas que ditam o que somos. Podemos optar passar por esta vida despercebidos, pouco apaixonados, pouco ligados, olhando para a frente sem olharmos os lados ou mesmo as costas. Ou há a outra escolha. Viver apaixonadamente, inebriados pelo gozo de viver, de ser…. Por que não podemos ser mais? Por que não podemos ir mais além, dar mais de nós… somos únicos… somos apaixonantes… somos seres diferentes, com ideias diferentes, com vivências diferentes, com experiencias diferentes… e podíamos fazer um mundo tão belo, tão cheio de nós e dos nossos dons…

Há palavras que nos mudam, há pessoas que nos mudam… precisei de estar convosco este fim de semana para me aperceber qual o sentido da vida, e que é hora da mudança, que é hora de sair deste ciclo e entrar num outro. Neste que me permite dar mais de mim, de ser mais e de preencher a minha vida...

Vou por aí….

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Deixa

Não.... não digas mais nada hoje. Todas as palavras são nada.
Deixa-nos assim, unidos, fundidos num só. Deixa que os nossos olhares se cruzem  e se enamorem. Deixa, deixa-os falar. Eles falam mais que os sons produzidos pelas nossas bocas. Deixa que as mãos se toquem timidamente, que se descubram, que se encubram.... Deixa... Não digas nada... Deixa que os nossos lábios dancem uma valsa lenta e sensual, que descubram o sabor de nós.
Deixa-me pousar em teu ombro sem esperar nada, sem dizer nada. Deixa que o teu braço me envolva. Deixa-me sentir. Sentir que estou viva, sentir que sou desejada, sentir que sou amada, sentir que sou querida, sentir-me. Deixa que eu sinta.
Sinto felicidade...
Não digas nada!

terça-feira, 29 de maio de 2012

1 de Junho

A criança desce a rua saltitando.
Despreocupada, desce cantarolando.
No olhar traz a doçura,
e nos lábios a travessura.

Traz um brinquedo na mão,
histórias de encantar no coração:
princesas, castelos, dragões
bruxas, guerreiros... tantas emoções!

Vive o mundo da fantasia.
O mundo que lhe traz alegria,
o mundo em que bastam os abraços,
onde os sorrisos criam laços.

Hoje deu-me uma flor
murcha e quase sem cor.
Agarrou-se à minha cintura
e envolveu-me em ternura.

Enlançou-me em si.
Faço parte de ti.
Criança, estás aqui!

domingo, 27 de maio de 2012

Dream


Estava deitada na minha cama, enroscada no meu lençol, respirando serenamente sobre a dócil almofada com o ar pacífico de quem descansa após um dia agitado.

Os meus olhos abriram-se. Sentei-me na cama e senti que me agarravam pelo dedo indicador. Não conseguia ver quem era, parecia um ponto de luz azulado e no ar havia um perfume adocicado que me fazia sentir tão tranquila. Não sei como, deparei-me com uma porta grossa de madeira envelhecida pelo tempo, trancada por um ferro bem grosso que parecia pesar toneladas. Mas aquela luzinha pequenina moveu a tranca da porta e disse-me numa voz inesperadamente firme e melodiosa:

- Agora já não podes voltar atrás, vais entrar no mundo dos teus sonhos.

A luz sumiu-se no ar e por momentos não consegui ver nada. Esfreguei os olhos com a mesma moleza com que uma criança esfrega os seus com o sono. Quando as minhas mãos abandonaram o meu rosto, caíram pesadamente e surgiu a surpresa. À minha frente havia um tapete de rosas vermelhas, arbustos verdes vivos, pássaros de todas as cores dando vida e música aquele lugar, as borboletas como que brincavam ao meu redor, e as flores pareciam abrir-se há medida que os meus pés se dirigiam até a um lago resplandecente que me convidada a sentar à sua beira.

Sentei-me na areia mais fina e mais macia que tinha tocado, enterrei os meus pés descalços e apoiei o rosto nas minhas mãos. Não conseguia pensar em nada. Fechei os olhos e ouvia o pássaro harmonioso, o som do peixe a nadar na água, o vento que suavemente batia nas folhas, o som das asas das borboletas… já não sentia o peso do meu rosto… estava tão leve.

Ouvi então algo diferente. Um pst pst que parecia vir de muito longe. Abri os meus olhos. Já não havia corpo, só a essência, não havia medo, não havia desconfortos, desconfianças, sentimentos que nos angustiam e que nos impedem de ver claramente. Havia o chiar do brinquedo, o riso da criança, a simplicidade do sorriso, a força para acreditar, o desejo concretizado.

Senti o meu corpo novamente. Agitava-se na cama, dava risos sonoros, e os meus olhos abriram-se. Ali estava eu. Sentada na cama, de sorriso na cara, um sorriso tolo de quem está feliz, o sorriso tolo de quem entendeu.

O nosso mundo dos sonhos está aqui dentro de nós. Basta saltarmos lá para dentro, de coração aberto e com sentimento puros. De lá sairemos mais ricos e conseguiremos alcançar o desejado. Dar o que temos de bom e deixar que alguém nos guie, vamos?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ainda vos sinto aqui
aninhadas no meu ventre,
longe do mundo,
longe de mim, aqui tão perto.
Respiro convosco,
rio com os movimentos,
acordo com um pontapé mais forte.
Sinto curiosidade,
quero saber como será o vosso rosto,
adivinhar a cor dos vossos olhos.
Sinto cansaço,
um cansaço feliz…
A barriga vai crescendo….
Aqui estão protegidas,
aqui dentro estão em segurança…
Mas não.
Já não é seguro manter-vos cá…
Chegou a hora, cedo demais,
chegou a hora….
Segurar-te nos meus braços valeu por tudo,
Fez esquecer o perigo
Fez abandonar a dor.
Pequenina, lutadora, estás agora aqui,
bem ao meu lado em segurança…
Mas tu…
Ainda não te vi,
Ainda não te segurei.
Como te posso proteger?
O que posso fazer por ti?
Quero dar-te carinho,
Quero sentir-te,
Tocar-te, acariciar o teu rosto….
E estás aí…
Dentro da caixinha, rodeada por fios
Rodeada por sons aflitivos,
Por luzes que nos baralham….
Segurar-te foi mágico
foi um toque suave,
foi estares cá dentro novamente.
Aqui nos meus braços sinto-te minha….
Aqui nos meus braços sou só eu e tu!
Passaram meses….
Aqui estão vocês.
Cúmplices, lindas, maravilhosas.
Estão aqui para me mostrar o mundo
De uma outra forma.
Mostram-me o que é o amor,
O que é sofrer por tanto querer bem,
O que é a felicidade,
A importância do sorriso
O poder do olhar
Mostram-me o caminho…
E eu vou…

domingo, 20 de maio de 2012


De mãos dadas, um olhar meigo, um gesto de carinho… um ombro amigo, as palavras certas e um beijo bem apaixonado…. E assim começa uma história que já tem 14 anos, um casamento e duas filhas….

Guardo na minha memória momentos fantásticos. Aquele dia em que estava um pedido de casamento escrito na areia, e, num peluche segurando umas rosas, um anel de noivado. Aquele dia em que juntos vimos o mais belo pôr do sol na Costa de Lavos. Aquele dia… e aquele outro dia que são tão nossos e que não cabem aqui neste espaço tão pequeno porque nos enchem o coração de alegria, de amor e de verdadeira felicidade…. E há ainda aquele outro dia…

Sim, já lá vão sete anos desde esse dia… um dos dias mais especiais… o dia em que nos “enlaçamos” para sempre… guardo-o num álbum de fotos, de emoções, de imagens, de cheiros, de risos e sorrisos.

E agora estamos aqui. O nosso álbum vai crescendo. Surgem os rebentos do nosso amor, surgem mais duas histórias dentro da nossa, mais emoções, mais sentimentos, mais amizade, mais amor…

Olhando para todo este percurso vejo-nos crescer, amadurecer entre rabugices, chatices e outras ices, entre abraços, beijos e olhares meigos. São bastantes os obstáculos que surgem no caminho, mas a amizade, a força da nossa união fazem-nos avançar sem medo, com medo, mas juntos.


De mãos dadas com elas, contigo, continuamos com o mesmo olhar meigo e com os gestos de carinho entre nós e com elas e para elas. És o meu ombro amigo, dizes-me as palavras certas mesmo quando me magoam e quando não as quero ouvir. E trocamos beijos cada vez mais apaixonados, beijos a quatro, beijos a dois, beijos de carinho, de amor, beijos de ternura….

Sete anos…. Sete anos e temos uma bela família, um belo lar, feito de choros, de discussões, de ideias diferentes, de muito trabalho, de dias menos bons, de noites mal dormidas, de birras, de risos, de flexibilidade, de noites mágicas, de abraços eternos, de sorrisos únicos, de olhares cúmplices, mas acima de tudo um lar alicerçado na transparência, na confiança, no amor e na amizade.

Parabéns a nós meu companheiro de viagem….

Há cerca de dois meses atrás  tomei a decisão. Não foi fácil e ainda não está a ser.  Por isso demorei algum tempo até me colocar em frente ao computador para escrever o que me vai na alma. Deixar o movimento que me formou como mulher, como cidadã, como mãe, como profissional, é como que arrancar um pedaço de mim, como que se um membro me fosse arrancado.

Foi em 1988 que entrei para o CNE…. Gostei da cerimónia das promessas e lá fui… Só havia mais uma rapariga além de mim e lembro-me das reuniões na Fratermo, dos jogos do Kim, dos jogos de pistas, dos jogos noturnos em que chorei de medo, da famosa patrulha Pantera, das amigas do coração, da competição saudável, da emoção da aventura.

Ser escuteiro não é apenas vestir uma farda engraçada e colocar um lenço colorido ao pescoço. Nestes 24 anos aprendi muitas coisas, desde cozinhar, montar uma tenda, construir uma mesa, fazer nós, fazer uma mochila, preparar o material necessário para o acampamento, ter a responsabilidade de ser guia, ter a responsabilidade de preparar actividades, saber estar em grupo, saber ser com os outros.

Ser escuteiro é mesmo um modo de vida. Todo aquele que é escuteiro tem uma responsabilidade grande: “Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos”. É das tarefas mais difíceis e mais nobre que podemos ter, deixar o nosso umbigo e servir o próximo, fazer os outros felizes para que nós encontremos também a felicidade.

Ser escuteiro é o querer subir à montanha não por querer lá chegar rápido, mas porque a viagem é uma lição de vida. Para mim ter sido caminheira foi marcante. Está aqui tatuado no meu coração o caminho que percorri. As caminhadas que fiz à chuva, com dores, desconfortável e que me deram uma lição importante sobre a união, sobre a amizade que surge com pessoas que não conhecemos. A subida à montanha foi sempre um lavar de alma, um rejuvenescimento, um começar de novo…. Quando chegava a casa estava suja, mal cheirosa, descabelada, rota, com bolhas nos pés, mas feliz….  E esta felicidade transbordava para os de casa, para os amigos, na escola porque ser escuteiro é ser especial.

Apesar de não fazer parte do movimento, nunca poderei deixar de ser escuteira. Posso não estar nas reuniões, posso não estar nas actividades, mas estou no mundo, vivo em sociedade e estarei sempre alerta para servir….