Pego na chávena do café e levo-a
aos lábios que se esticam procurando sorver o gosto da fugaz meia hora de
pausa. Batem gotas de água na vidraça, lançadas pelo vento impaciente e revolto
que teima em perturbar as pessoas que correm procurando um abrigo. Abrigadas do
vento, da chuva, de si mesmas, do que as perturba? O café está cheio. Olho em
volta vertendo novamente um pouco de café na minha boca sentindo o deleite
daquele gesto tão repetido. Há olhares perdidos, futuros incertos, medos
escondidos em olhares apagados. Há paixões escondidas, olhares cúmplices,
olhares traiçoeiros. Há um sorriso que se ergue e que se dirige à minha mesa.
Finjo não perceber. Senta-se à minha frente.
- Então Gustavo? Como tens
passado?
- Frederico? Nem te estava a
reconhecer, pá. Como estás? Já não te via há uns anos.
Lembro-me bem do dia em que
conheci o Frederico. Deu-me um murro no nariz porque eu lhe roubei o lugar no
autocarro a caminho da escola. Era o meu primeiro dia de aulas, sabia lá eu que
o lugar estava marcado. Mas depois desse dia foi um irmão mais velho para mim.
Tomava conta de mim na escola assegurando-se de que ninguém se metia comigo.
Partilhámos as dores, as conquistas, as brincadeiras, as aventuras, algumas
namoradas, fizemos girar a terra debaixo dos nossos pés. Mas, na busca do
sonho, rasgaram-se caminhos diferentes para nós. O tempo, os novos amigos, as
novas aventuras, encarregaram-se de nos fazer esquecer.
Aqui estava ele, de novo, à minha
frente, com o mesmo sorriso no rosto e o mesmo brilho no olhar. Estou certo que
da sua boca foram proferidas inúmeras palavras, na tentativa de fazer uma
síntese à sua, certamente, fascinante vida. A minha expressão facial
acompanhava, com uma falsa emoção, o seu discurso, no entanto, os meus olhos
seguiam-na. Tinha acabado de entrar. Trazia um rasgo de calor ao abrir da
porta. Os lábios rubros rasgados pelo olhar profundo e sensual. O lenço verde
ao redor do seu pescoço trazia cor aos acinzentados seres ali presentes.
Sempre, aquela hora, cruzávamo-nos neste café. Aquela meia hora era para ela, o
meu olhar repousava nela e eu fantasiava. O ritmo dos seus passos eram uma
balada do Michael Bublé. Parou ao meu lado. Os meus olhos não descolavam dela.
- Gustavo, esta é a minha esposa.
Sónia, este é o Frederico.
Sem comentários:
Enviar um comentário