domingo, 22 de julho de 2012


Pego na chávena do café e levo-a aos lábios que se esticam procurando sorver o gosto da fugaz meia hora de pausa. Batem gotas de água na vidraça, lançadas pelo vento impaciente e revolto que teima em perturbar as pessoas que correm procurando um abrigo. Abrigadas do vento, da chuva, de si mesmas, do que as perturba? O café está cheio. Olho em volta vertendo novamente um pouco de café na minha boca sentindo o deleite daquele gesto tão repetido. Há olhares perdidos, futuros incertos, medos escondidos em olhares apagados. Há paixões escondidas, olhares cúmplices, olhares traiçoeiros. Há um sorriso que se ergue e que se dirige à minha mesa. Finjo não perceber. Senta-se à minha frente.

- Então Gustavo? Como tens passado?

- Frederico? Nem te estava a reconhecer, pá. Como estás? Já não te via há uns anos.

Lembro-me bem do dia em que conheci o Frederico. Deu-me um murro no nariz porque eu lhe roubei o lugar no autocarro a caminho da escola. Era o meu primeiro dia de aulas, sabia lá eu que o lugar estava marcado. Mas depois desse dia foi um irmão mais velho para mim. Tomava conta de mim na escola assegurando-se de que ninguém se metia comigo. Partilhámos as dores, as conquistas, as brincadeiras, as aventuras, algumas namoradas, fizemos girar a terra debaixo dos nossos pés. Mas, na busca do sonho, rasgaram-se caminhos diferentes para nós. O tempo, os novos amigos, as novas aventuras, encarregaram-se de nos fazer esquecer.

Aqui estava ele, de novo, à minha frente, com o mesmo sorriso no rosto e o mesmo brilho no olhar. Estou certo que da sua boca foram proferidas inúmeras palavras, na tentativa de fazer uma síntese à sua, certamente, fascinante vida. A minha expressão facial acompanhava, com uma falsa emoção, o seu discurso, no entanto, os meus olhos seguiam-na. Tinha acabado de entrar. Trazia um rasgo de calor ao abrir da porta. Os lábios rubros rasgados pelo olhar profundo e sensual. O lenço verde ao redor do seu pescoço trazia cor aos acinzentados seres ali presentes. Sempre, aquela hora, cruzávamo-nos neste café. Aquela meia hora era para ela, o meu olhar repousava nela e eu fantasiava. O ritmo dos seus passos eram uma balada do Michael Bublé. Parou ao meu lado. Os meus olhos não descolavam dela.

- Gustavo, esta é a minha esposa. Sónia, este é o Frederico.

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