Afagando o pelo macio do meu novo
e fiel amigo, vou repescando memórias do fim de semana passado. Ainda tenho o corpo
dorido, mas tenho dificuldades em identificar de que dor me lamento.
Primeiro sentimos o caminho, as
pedras, os solavancos. A chuva é miudinha e vai cobrindo os vidros. A humidade
vai-nos cegando, vai fechando as cortinas das janelas do carro. Como o dedo
desvendamos apenas um pouco da magia. O frio é algum, mas não impede que se
abram por completo as janelas. A chuva bate miudamente no nosso rosto que se
revela num sorriso deslumbrado. Lá fora a natureza exibe-se para nós,
mostrando-nos o poder e a beleza que tem. As nuvens passeiam pelos montes como
pedaços de algodão. O cheiro é o de inverno, de chuva, de terra molhada, de
plantas agrestes… entre montes, lá está ela. Primitiva, belíssima, única, à
nossa espera. Como é que uma pequena aldeia pode conter em si mesmo tanta perfeição,
tanta magnificência sendo o rosto da simplicidade? Casas miúdas encerram em si
mesmo histórias de outros tempos. A pastora que passa, o Max e as cabras
levam-nos a recuar a outros tempos e a invejar um dia a dia nos montes, ouvindo
Deus, ouvindo-se a si mesma. Os caminhos são sinuosos mas a viagem é deliciosa.
Conhece-la é uma paixão, é como se conhecêssemos o amor da nossa vida. Ficamos deslumbrados
e queremos estar ali todos os dias para saber como será cada dia com ela, o que
tem para nós e, o melhor, é que com ela somos pessoas melhores.
E quando chega a altura de pensar
o que é essencial corre um filme na minha cabeça. A minha família. As pessoas
que partilham uma mesa comigo, que almoçam, jantam, e podem até nem cear, mas
partilharam a refeição, o sorriso, a história, partilharam-se. Estas que estão
ao alcance de um telefonema. Estas que nos conhecem os defeitos mas que amam as
nossas qualidades.
Lutar pelo que me faz feliz. Ficou
lá esta frase, numa moldura singular e peculiar. Parece tão simples. Mas está na
mão de cada um dos que fizeram caminho comigo, e que fazem todos os dias,
lembrarem-me: Ei, faz o que te faz feliz!
Na aldeia dos sonhos, dentro da
casa do fogo, expuseram-se as casas. Umas mais tortas, umas mais direitas, umas
mais coloridas que outras, mas todas com sonhos, com projetos, com ideais. E é
aqui que me dói. A base está lá, meia torta mas solidificada. Estão lá os
projetos e os sonhos, são tantos. Mas vão transitando de ano para ano na minha
mente, amadurecendo mas não são semeados, não vincam. Há um mundo lá fora que me
castra e castiga e me mantém fora dos meus sonhos e que me amarra à triste
realidade. E não tenho força, nem coragem.
Sim, Drave deixou uma marca. Ou duas.
Uma física, mas a outra é maior ainda. É o rever do PPV, é o ter de fazer
alguma coisa, é o ter de decidir, de meter mãos à obra. Deus ofereceu-me Drave,
agora que esperas Tu de mim?