domingo, 20 de setembro de 2015

Mentira

As minhas pernas cruzam-se e estico o corpo para trás apoiando-me nas mãos. Não tenho dores e consigo ficar assim a olhar o infinito durante o tempo que as minhas escapadelas à realidade duram. Olho as nuvens almofadadas, brancas, esfarrapadas pelo vento que as vai movendo e desestruturado, modificando-as. E elas tomam novas formas. Ponho os óculos de criança que trago comigo e vejo formas de animais. O leão está prestes a apanhar o pato que vai apressado como que procurando fugir do selvagem. Uma das nuvens toma a forma de uma cadeira e eu não resisto. Sento-me confortavelmente na cadeira imaginária e olho para baixo.
Tu dormes num sono profundo e inocente. A respiração marca o ritmo da tua vida. Todo o teu corpo é amor, calma, doçura. Exalas um perfume que me apaixona, que me faz querer cheira-te de perto. As minhas mãos, numa vontade que cresce no coração, deslizam para o teu rosto e acaricio essa pele macia e meiga. Abres os olhos que encontram os meus, puxas a mão para ti e beija-la com todo o amor que possa existir neste mundo e sei que isto é o certo, o verdadeiro, a minha razão de ser.
Tu estás encostada ao meu ombro. Um encosto não de oportunidade ou de conforto, é um encosto terno, meigo, daqueles encostos que gritam: AMO-TE! e FICAVA ASSIM O RESTO DA MINHA VIDA. Voltas o rosto para mim e beijas-me nos lábios, aquele beijo pleno de inocência que ainda vem junto com o teu cheirinho de quando eras bebé, aquele beijo que até hoje ainda não se dissolveu na vergonha, no embaraço. O meu coração aperta e pergunto-te se quando eu for velha se ainda me amas. Respondes-me que sim. Não tenho dúvidas disso, mas sei que haverá alturas em que não te lembrarás que me amas, que me irás ver como um obstáculo, um empecilho. Embora saiba isto tudo, nada me prepara para esses dias. Sei que o meu ombro estará sempre aqui, amor.
Tu estás a ver o jogo de futebol no tablet, sem som. Tu. A razão da tua vida somos nós, o teu amor é simples, incondicional, sem exigências, sem nós, sem encruzilhadas, é um amor feito de laços, de nós direitos que agarram quando necessário mas que também se desfazem na altura de deixar ir, de deixar voar. É no teu peito que encontro a minha âncora, o meu calmante, a minha certeza. É no toque da tua mão que sei o teu amor, que sei sermos um.
E eu. Sentada no sofá com um livro na mão. Leio. E na minha mente o livro, eu, tu, tu, e tu e tudo, todos e tantas coisas. Quero que se calem as vozes. Que se acalme a respiração, que o peito não doa. Que os sonhos desvaneçam, que as esperanças cessem, que o conformismo venha, que a indiferença permaneça até o equilíbrio chegar.
Aqui. Na minha cadeira macia e fofa apercebo-me que o meu coração vive o que deveria ter deixado para a mente. Vivo a mentira, vivo a preocupação daquilo que me atormenta. Vivo com a revolta, com o inconformismo e com a desilusão. Tudo incorreto. Tudo mentira. A verdade és tu e tu e tu. São vocês a razão. São vocês o que eu quero. Tudo o resto é a mentira. Tudo o resto me desvia do meu caminho.

Como diria José Régio: “Não, não vou por aí”.