segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sou um 15


Sou um 15. Um meio. Não sou 10, nem sou 20… apenas um 15. Uma medida que me classifica. Sabes, um 15?

 

Enquanto vagueio pelas ruas, olho distraidamente as pessoas. Penso em classifica-las. Tu aí, tu és um 12. Mas tu, fogo, um 18, sem dúvida. E agora tu, que estás a ler esta treta de texto, és um 10. Quero mandar as normas e as classificações para bem longe. Lá para as terrinhas delas. Quem as inventou? Quem disse que tinha de haver um padrão? Padronizar, uniformizar, estandardizar. Porra para tanto ar. É mais fácil assim? Pois, sei que sim. Assim me exige a profissão. Leio, classifico, escrevo a roxo no local destinado para o efeito. A vermelho não. Não gosto de ser normal.

 

Quero ser única, quero ser eu, sem normas, sem regras. Assim como sou. Não tenho que ser como os outros, não tenho que ser ovelha branca no rebanho, nem ser a ovelha negra, porque essa também é uma norma. Todos querem ser a ovelha ronhosa, porque diferente. Quero ser eu, porra, sem ser negra, branca ou ronhosa…. Eu, percebem? Eu.

 

Não sou um número, não sou um nome, sou mais que isso, eu sei que sim. Estou cheia de mim, toda eu sou eu. Tenho em mim sonhos, ideias, sentimentos, beleza e ambições. Tenho em mim um pouco disto e daquilo, muito de ti e de ti e mais um pouco daquele. E tudo isto me vai enchendo, como se enche um balão de ar quente, dando-me forma, e ar para voar, para me perder por esta vida, saboreando as rajadas de vento e o frio na ponta do nariz.

 

 

Não sou um corpo, ou um rosto, sou eu. Consegues ver? Como diria Saramago, então repara. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Já não há princesas


- Se ela é a mulher do teu filho, tens de estar com ela, mesmo que não queiras. A escolha foi dele, mas tem de ser assim, fazes o esforço.

- Pois, eu sei. Mas não é fácil.

- Sabes, é que hoje em dia já não há princesas.

O ar encheu-se daquele perfume, que, convenhamos, tudo tinha a ver com o ambiente que me rodeava. O perfume das senhoras bem, um aroma demasiado doce, que enjoa, junto com o cheiro ativo da laca de cabelo usada em exagero. Senti ainda um rasto da base perfumada, que escorria pelo rosto à custa do esforço de se pavonearem pelas ruas da cidade debaixo de um calor insuportável, com uma maquilhagem demasiado carregada para a idade. Os pés inchados dentro do sapato de salto mediano marcavam os passos decididos, de quem fala com a razão na ponta da língua, a razão e a espada. Já não há princesas? Mas afinal quem é que quer princesas? Pobres senhoras. Vivem ainda neste mundo, no mundo dos alfinetes de peito, das máquinas de escrever com fita, dos dedais de porcelana, dos pratos decorados com o rosto da Lady Di, das rendas, das taças de estanho, dos castiçais, dos bancos altos para por vasos, das loiças azuis, floreadas. Acreditam na dona de casa perfeita, aquela que vive acorrentada à cozinha e aos filhos, que não almeja muito, apenas o conforto de viver sem chatices, que mantém o sorriso perfeito no rosto, que nunca discute, que nunca pede nada, que está ali, com o ar das bonecas de porcelana desta feira de antiguidades. Bonitas, impávidas e serenas.

Os tempos são outros. As mentalidades outras. Viver não é sobreviver, viver é apanhar o gosto da vida. Não há correntes nem obrigações, há caminhos a percorrer, a dois, ou sós.  Os casamentos nem sempre são para sempre, e o facto de não o serem não é o fim do mundo, é o fim de algo, o começo de outra coisa qualquer. Faz parte do percurso da vida. Não, não há princesas, e depois? Ainda bem.

Eu espero pela mulher que me queira levar ao altar, sou velho, eu sei, mas há de surgir a mulher certa. Aquela que não queira parecer uma princesa, contente comigo vestido, sou antigo e nada tenho que ver com estes tempos modernos.