sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Nina

Era o último dia do ano de 2010. Depois de fazer choradinho, lá convenci o meu companheiro de viagem a embarcar numa nova aventura, adotar um cão.
A Nina andava há já uns tempos a fazer-me olhinhos na página das Quatro patas e focinhos. O olhar meigo e assustado conquistaram-me e só pensava em acarinhá-la, em fazê-la sentir-se segura.
Quando chegámos à Mealhada conhecemos a Nina, uma cadela adulta, com 4 anos, muito assustada principalmente na presenta de pessoas do sexo masculino, vá-se lá saber qual a história por detrás deste medo. Nesse dia tinha acabado de chegar ao canil um cão lindo, daqueles peludinhos e pequenos que qualquer família se apaixonaria. A Daniela ficou encantada com ele, ainda nos perguntaram se queríamos mudar de ideias, mas eu estava segura da minha decisão, esta cadela seria um desafio e eu estava disposta a conquistá-la.
Os primeiros dias da Nina em nossa casa não foram fáceis. Assustada, com medo de todos, mas afeiçoou-se a mim. Descobri que estava grávida da Filipa passados uns meses, nesta altura a Nina já roubava os bonecos do triciclo da Daniela enquanto ela dava volta intermináveis ao pátio.
A Nina nunca nos saltou para cima, mas abanava o rabo com uma felicidade imensa com aquele olhar meigo que nos derretia e nos deixava apaixonados. A minha mãe tentou aproximar-se dela, mas deve ter demorado um ano até se conseguir chegar sem que ela lhe rosnasse, nos últimos anos já se deixava tocar.
Quando cheguei a casa, depois da Pipa ter nascido e ter ficado internada , senti-me vazia e perdida, fui procurar o miminho bom da Nina. Ela cheirou-me toda e deitou-me um olhar triste, parecia que me entendia, parecia que tinha percebido que eu tinha dado à luz, mas a minha cria não estava comigo... A Nina cresceu com a Daniela e com a Filipa, sempre com uma barriga fofa virada para elas à espera das festinhas que tanto gostava, sempre com um focinho a tocar ao de leve nas nossas mãos procurando o nosso toque.
Não quero nunca esquecer esta minha companheira de 8 anos, que me obrigou a conquistá-la, que me amou, que confiou em mim, a que corria atrás das minhas filhas,  a que conquistou a dona da churrasqueira e os clientes que a viam no tapete à espera de um  mimo... Não sei onde ficaste, não sei se estás viva, só sei que aqui em casa há um vazio enorme, que a toda a hora acho que és tu a ladrar ao portão à espera de entrar, a cada chegada acho que sairás por trás das ervas do  jardim a ladrar feliz por estarmos em casa...