Ser mãe. Ser mãe implica
abandonarmo-nos um pouco, pormo-nos de lado para ser… mãe. E quando alguém diz
que está de esperanças, há de imediato uma voz que lhe diz: “Prepara-te: noites
mal dormidas, birras, vómitos, varicelas, diarreias, dores de ouvidos, consultas,
almoço, jantar, lanche, roupas, birras.” É verdade. Há isso. Mas ninguém refere
o outro lado, aquele que é difícil de descrever. Sim, quando se sente o cheiro
de um recém-nascido há uma nuvem de bondade que paira sobre nós, quando o
aconchegamos nos braços somos protetores do mundo, do tesouro encontrado pelo
Ali Babá.
Ali estava ela, com a sua cria.
No seu rosto vivia um sorriso permanente, mesmo tendo os lábios relaxados.
Contou-me a sua história.
Até às 27 semanas tudo tinha
corrido normalmente, sem enjoos, sem incómodos. Era tudo tão natural. O corpo
modificava-se e lá dentro a vida brotava. A barriga cedia aos movimentos do
bebé e a mão da mãe procurava tocar-lhe para que sentisse o seu calor, o calor
do amor cego, incondicional. Nessa altura avisaram-na que a menina não estava a
crescer. Como uma erva daninha que cresce no mais graciosos jardins, assim
nasceu um medo. Às 32 semanas decidiram fazer cesariana. É então que tudo fica
escuro, diz-me ela. Há um caminho desconhecido à frente e não sabemos que
passos dar. Não depende de nós, não está nas nossas mãos, e temos de deixar
acontecer e esperar o melhor.
A menina ficou na incubadora, com
menos de 1, 50kg. Cabia no bolso da bata das enfermeiras. Entre ela e a mãe uma
barreira de vidro e um círculo redondo onde cabia uma mão que lhe afagava muito
cuidadosamente a cabecinha do tamanho de uma laranja lá do quintal. O corpo da
mãe estremecia ao apito das máquinas, ao corrupio dos médicos e das
enfermeiras. Não lhe soube o cheiro durante uns dias. Contou todas a gramas e
todos os pequenos mililitros de leite. Esteve horas a fio sentada ao seu lado
olhando apenas, e de noite, já em casa, chorava a sua ausência. Festejou todos
os aumentos de peso, festejou a saída de cada fio preso ao corpo da menina,
festejou a primeira roupa que lhe vestiram, festejou a dura luta que levou a
menina a pegar no peito, e a viagem de regresso a casa.
Olho nos seus olhos. Quero aquela
réstia de arco-íris em mim.