segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ser mãe...


Ser mãe. Ser mãe implica abandonarmo-nos um pouco, pormo-nos de lado para ser… mãe. E quando alguém diz que está de esperanças, há de imediato uma voz que lhe diz: “Prepara-te: noites mal dormidas, birras, vómitos, varicelas, diarreias, dores de ouvidos, consultas, almoço, jantar, lanche, roupas, birras.” É verdade. Há isso. Mas ninguém refere o outro lado, aquele que é difícil de descrever. Sim, quando se sente o cheiro de um recém-nascido há uma nuvem de bondade que paira sobre nós, quando o aconchegamos nos braços somos protetores do mundo, do tesouro encontrado pelo Ali Babá.

Ali estava ela, com a sua cria. No seu rosto vivia um sorriso permanente, mesmo tendo os lábios relaxados. Contou-me a sua história.

Até às 27 semanas tudo tinha corrido normalmente, sem enjoos, sem incómodos. Era tudo tão natural. O corpo modificava-se e lá dentro a vida brotava. A barriga cedia aos movimentos do bebé e a mão da mãe procurava tocar-lhe para que sentisse o seu calor, o calor do amor cego, incondicional. Nessa altura avisaram-na que a menina não estava a crescer. Como uma erva daninha que cresce no mais graciosos jardins, assim nasceu um medo. Às 32 semanas decidiram fazer cesariana. É então que tudo fica escuro, diz-me ela. Há um caminho desconhecido à frente e não sabemos que passos dar. Não depende de nós, não está nas nossas mãos, e temos de deixar acontecer e esperar o melhor.

A menina ficou na incubadora, com menos de 1, 50kg. Cabia no bolso da bata das enfermeiras. Entre ela e a mãe uma barreira de vidro e um círculo redondo onde cabia uma mão que lhe afagava muito cuidadosamente a cabecinha do tamanho de uma laranja lá do quintal. O corpo da mãe estremecia ao apito das máquinas, ao corrupio dos médicos e das enfermeiras. Não lhe soube o cheiro durante uns dias. Contou todas a gramas e todos os pequenos mililitros de leite. Esteve horas a fio sentada ao seu lado olhando apenas, e de noite, já em casa, chorava a sua ausência. Festejou todos os aumentos de peso, festejou a saída de cada fio preso ao corpo da menina, festejou a primeira roupa que lhe vestiram, festejou a dura luta que levou a menina a pegar no peito, e a viagem de regresso a casa.

Olho nos seus olhos. Quero aquela réstia de arco-íris em mim.


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