- Se ela é a mulher do teu filho,
tens de estar com ela, mesmo que não queiras. A escolha foi dele, mas tem de
ser assim, fazes o esforço.
- Pois, eu sei. Mas não é fácil.
- Sabes, é que hoje em dia já não
há princesas.
O ar encheu-se daquele perfume,
que, convenhamos, tudo tinha a ver com o ambiente que me rodeava. O perfume das
senhoras bem, um aroma demasiado doce, que enjoa, junto com o cheiro ativo da
laca de cabelo usada em exagero. Senti ainda um rasto da base perfumada, que
escorria pelo rosto à custa do esforço de se pavonearem pelas ruas da cidade
debaixo de um calor insuportável, com uma maquilhagem demasiado carregada para
a idade. Os pés inchados dentro do sapato de salto mediano marcavam os passos
decididos, de quem fala com a razão na ponta da língua, a razão e a espada. Já
não há princesas? Mas afinal quem é que quer princesas? Pobres senhoras. Vivem
ainda neste mundo, no mundo dos alfinetes de peito, das máquinas de escrever
com fita, dos dedais de porcelana, dos pratos decorados com o rosto da Lady Di,
das rendas, das taças de estanho, dos castiçais, dos bancos altos para por
vasos, das loiças azuis, floreadas. Acreditam na dona de casa perfeita, aquela
que vive acorrentada à cozinha e aos filhos, que não almeja muito, apenas o
conforto de viver sem chatices, que mantém o sorriso perfeito no rosto, que
nunca discute, que nunca pede nada, que está ali, com o ar das bonecas de
porcelana desta feira de antiguidades. Bonitas, impávidas e serenas.
Os tempos são outros. As
mentalidades outras. Viver não é sobreviver, viver é apanhar o gosto da vida.
Não há correntes nem obrigações, há caminhos a percorrer, a dois, ou sós. Os casamentos nem sempre são para sempre, e o
facto de não o serem não é o fim do mundo, é o fim de algo, o começo de outra
coisa qualquer. Faz parte do percurso da vida. Não, não há princesas, e depois?
Ainda bem.
Eu espero pela mulher que me
queira levar ao altar, sou velho, eu sei, mas há de surgir a mulher certa.
Aquela que não queira parecer uma princesa, contente comigo vestido, sou antigo
e nada tenho que ver com estes tempos modernos.
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