terça-feira, 29 de julho de 2014

Joana, real ou imaginária?

Joana. O nome dela é Joana. Frequenta a escolinha no grupo dos três anos. Já fugiu de leões, já ficou de castigo uma e outra vez. Já veio cá a casa. É a avó que a vai buscar, mas hoje não foi porque ela se portou mal.
A Joana vive na cabeça de uma ratinha de 3 anos. Não existe. Crueldade a minha. Ela existe, naquele mundo em que a Pipa vive. Naquela escolinha em que a Joana anda, nas coisas que faz. Ela existe. Quem sou eu para afirmar o contrário. Ouço divertidamente as histórias da Joana e o rosto da Pipa altera-se quando fala dela, será por saber que eu não a vejo?
A Pipa tem uma amiga imaginária, com uma vida imaginária, mas para ela tudo é real.
Eu. Eu tenho uma vida real. Ou será imaginária? Ultimamente não sei bem. Será que sonhei, será que aconteceu? Fico baralhada, confusa e um pouco perdida. Penso nas coisas, sonho com elas mas será que existiram?
Por vezes saio de mim (não sei explicar isto muito bem) e sinto que tudo isto não está a ser vivido. Que estou perante um ecrã qualquer amordaçada e acorrentada sem poder fazer nada, apenas assistindo ao que me vai acontecendo… qual será o sonho? O que se passa à noite de olhos cerrados, ou o que se passa com os olhos abertos?
Na minha cabeça vivem muitas personagens. As do dia-a-dia, as das histórias de encantar, as das séries, dos filmes, dos livros que leio. As mais assustadoras são as modeladas. Das planas nada a dizer, nada se acrescenta, nada se retira. Mas as outras? A sua densidade psicológica forma um nó na minha mente. Um nó desleixado, que nada ata mas que atrapalha. Aquele que queremos arrancar com os dentes, sem usar a faca… nunca se corta um nó. Desfaz-se. Aprende-se.

E é aqui que encontro a maravilha da vida. Este encontro entre o real e o imaginário. Estas personagens que nos vão moldando que nos vão transformando que nos obrigam a desfazer nós descurados para aprendermos que os nós mais importantes são os direitos. Aqueles que te apertam com força mas que te dão a liberdade de seres tu, livre e real. (ou imaginário)

terça-feira, 22 de julho de 2014

A minha infância?
 Tive duas irmãs. Vivendo quase lado a lado brincávamos na estrada, apanhávamos amoras, corríamos, jogávamos às escondidas. Depois mudei de casa. Nasceu o meu irmão. E passámos a ser 4. 4 em cima da carrinha de caixa aberta a caminho da aventura. 3 a fazer cócegas no mais pequeno. Ele a mijar-se a rir e nós quase lá. Ele a cantar “Oh agostinho que rico vinho”. Eu a fazer birras porque não queria lavar os pés, porque não queria estar ali porque obrigavam-me a comer. “Em casa deste homem, quem não trabalha não come.” Elas a força da terra, o cheiro do sal, eu um pouco flor de estufa.
Os anos passaram. Aprendi a nadar com elas, a dançar nos bailes com elas. Passei as minhas melhores passagens de ano. Os melhores dias de praia, os melhores lanches. Apanhámos caranguejos, berbigões, caímos ao rio do bote. Atravessámos o rio desafiando as nossas forças. E se o fiz foi porque elas estavam lá, prontas a estar ali no momento que eu precisasse.
Há cheiros que me trazem sorrisos, há dias em que o vento me traz de volta a descida íngreme ao lado da igreja em que a bicicleta quase que voava rua abaixo. A sensação do lodo nos pés, das cascas a fazerem cortes, os caranguejos que nos picavam. O chão da salina seco onde jogávamos com uma bola. Os viveiros que invadíamos para ir ao banho. O dia em que tiramos os fatos de banho dentro de água.
Depois o dia em que parámos o carro para dar abrigo ao Simba. O seu ar assustado derreteu-nos os corações e mesmo todo sarnento lá veio o cachorrinho no meu colo pronto a ser socorrido. O dia em que Xena foi lá para casa cega, pequena e assustada. Mesmo cega a gata sabia sempre onde ir, como subir as escadas e procurar o mimo das donas. Poderiam não ser os meus animais mas sempre os amei como tal, porque aquela casa era também a nossa. Ali sempre nos sentimos bem-vindos, amados e acima de tudo felizes.
E em todos estes dias houve uma mulher. Que tornava a terra fértil com as suas mãos fortes, cavando com força, volvendo, trabalhando a terra para dela tirar o sustento. Puxava a água do poço com uma corda para regar o quintal apanhando das árvores os frutos que acalmavam a sua sede. Rodilha à cabeça, pés descalços nas salinas. Pés que dançavam ao som das músicas dos bailes, mãos que seguravam as minhas para me ensinar. Sempre, mas sempre de sorriso nos lábios, sempre com assunto para a conversa, sempre pronta a refilar disto ou daquilo, sempre com a gargalhada pronta a sair e a marotice toda no olhar. Sempre nos ensinou a ser meigas com os animais, a dar valor ao pouco que tínhamos, a tirar partido das coisas, a dar valor ao nosso trabalho, a sermos humildes e generosas mas sempre lutando pelo que temos direito. Assim são agora as duas filhas e as duas netas. Eu sou só a sobrinha.

Escrevo para que o tempo não me apague memórias. Para que torne eterno aquilo que foste. Para que se dê valor ao que temos hoje porque amanhã pode não estar. Para que se ame enquanto se vive. Para me lembrar que o único meio para o sucesso é o trabalho, a humildade e a sabedoria de estarmos em paz com o que somos porque damos o nosso melhor. Escrevo porque te amo e tive a oportunidade de to dizer.