Hoje queria escrever-te. Falar-te
dos dias amenos, do sol acolhedor, do canto dos pássaros, da felicidade do
bater de asas da borboleta, do sabor do vento no rosto. Queria abrir-te uma
janela para aquelas pequenas e insignificantes coisas que nos fazem felizes. Queria
fazer-te sentir este bem estar, dar-te um pouco do mundo, daquilo que dizes ter
saudades com todas as letras.
Mas ontem choveu e hoje também. O
sol abafa-nos e não nos deixa respirar, o corpo fica pegajoso e incomoda andar
na rua. Hoje queria estar aí ao teu lado. Sei que estou a ser inconveniente ao
dizer isto mas queria estar afastada, longe. Sim, eu sei… sei o que estás a
dizer. Aliás consigo até ouvir a tua voz e sentir o teu olhar no meu a
repreender este meu pensar.
Sabes, se te escrevesse não
conseguiria dar-te o sorriso que te prometi. Teria de te falar daquelas coisas
que tornam os dias chuvosos, que nos incomodam ao ponto de nos sentirmos sujos
e sufocados. Sabes, a palavra liberdade é tão relativa, tão ambígua…. Não sei
quem está mais privado de liberdade se tu, se eu…
Dou voltas e voltas para me
tentar soltar mas a corda vai apertando cada vez mais. Os sonhos vão ficando
para trás, as coisas que gosto de fazer ficam algures perdidas nas horas, eu
própria vou perdendo a minha individualidade, o meu eu vai-se apagando,
desvanecendo, derretendo sob este sol abafado, levado pela chuva forte.
Hoje queria ter feito como ele,
queria ter deixado o saco pendurado na árvore antes de entrar em casa. Mas não
consigo… e até essa minha liberdade se vai, essa que me permite estar bem com
os que amo….essa que nos dá um teto em dias de chuva, que nos protege do sol,
que nos convida a relaxar e a aproveitar os momentos efémeros…
Amanhã…. Amanhã eu escrevo-te.