quinta-feira, 25 de abril de 2013


Há 13 anos que guardo este pequeno pedaço de papel. Vai mudando de carteira para carteira, vai mudando de lugar e permanece junto com outros papéis que ocupam o lugar por um curto espaço de tempo.
Sei exatamente onde estava naquele dia, sei exatamente qual era o telemóvel que tinha quando me fizeram a chamada, sei quem estava do outro lado do telefone, a mesma pessoa que 13 ano depois me volta a inquietar-me com a mesma questão e, possivelmente, também não me esquecerei do local onde estava, nem da voz ao telefone…
Todos os dias a vida nos lança estes desafios, que nos levam a questionar as razões que os outros tiveram para nos escolherem para determinadas tarefas, e muitas das vezes, vasculhamos, feitos baratas tontas, as razões que levaram essas pessoas a fazerem isso.
Hoje, 13 anos depois, descubro que a resposta a esta questão está no futuro… não está no passado. É aquilo que somos capazes de fazer que nos torna especiais, não é o que fomos, nem o que fizemos. São os valores que empunhamos, a envolvência que temos e termos a certeza de que onde quer que estejamos faremos sempre o nosso melhor, daremos sempre mais, seremos sempre homens novos ajustados às situações que nos vão surgindo…
É isto que se chama fazer caminho. É aqui que está a chama. Uma luz forte que nos guia, e, confiantes, caminhamos para ela.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ingenuidade


Às vezes fico a pensar que a minha ingenuidade é inacreditável. É como se fosse uma mulher de 34 anos que ainda acredita que o Pai Natal existe e que anda ali o ano inteiro a preparar, com os seus amigos duendes, uma época festiva fantástica, cheia de luzes, de cânticos, de calor, de abraços, sorrisos, cachecóis de amizade a amor por todo o lado. Que idílio…

Mas depois há uma mão gigantesca que atinge a minha face e me diz: CRESCE… e mostra-me que o Natal é uma fachada consumista, que é um pretexto para se consumir, e, muitas das vezes, as pessoas esquecem a verdadeira razão do Natal, natividade, nascimento… o salvador nasceu.

E no meu dia a dia lá ando eu, feita tola às vezes, a tentar mudar o mudo, a fazer deste local a better place… e fico possessa por não mudar nada, por haver quem possa mudar e nada faça, por esta porra desta vida ser injusta como o raio, por me apetecer gritar e emudecerem-me com estatutos mais elevados, com frases feitas e hipocrisias.

Erguem-se bafejando palavras cheias de poder e ostentação, erguem-se usando os argumentos mais válidos, erguem-se cegos e surdos. Tendo olhos só vêm o azul que lhes convém, o turquesa, esquecendo o azul mar, o azul claro, o escuro e todos os outros. Tendo ouvidos, só o som das suas vozes faz sentido, e tamponam-nos a outros sons…

Mas como continuo a acreditar no Pai Natal, arregaço as mangas e no que depender de mim, haverá Natal com tudo o que há direito, sem esquecer o valor verdadeiro que as coisas têm…

domingo, 7 de abril de 2013


Imagino-o sentado numa rocha
Os seus olhos alcançam o horizonte
Perdem-se entre as florestas, as montanhas,
Os rios, as casas, os mares…
As suas barbas brancas escondem o seu rosto
Há nele um peso gigantesco
Um semblante carregado como uma nuvem cinzenta
Que paira no ar e que esperamos que rebente a qualquer altura

A certa altura esconde a cabeça entre os joelhos
Como que espera que alguém a arranque daquele esconderijo

Queria poder sentar-me junto a ele
Queria poder entender
Queria poder explicar
Queria poder…

Cada marca no seu rosto cansado
É um dedo que lhe foi apontado
Um dedo delator
Um dedo fraco
ignorante, arrogante.

Culpam-no de tudo.
Se há alguém que tem culpa dos fracassos
da vida, dos sonhos, das relações…
Foi ele.
Tudo ele.

Ninguém vê que ele não tem culpa.
Ele é o que é.
A culpa é nossa.
Ele não fez nada.



É tempo de lhe dar tempo
E não culpar o tempo
De não haver tempo
Porque o há.
Faz tu o teu tempo!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Espelho da mentira


mentira 
(origem controversa)
 

s. f.
1. Acto de mentir.
2. Engano propositado. = FALSIDADE
3. História falsa. = PATRANHA, PETA, TANGA
4. Aquilo que engana ou ilude. = FANTASIA, ILUSÃO

in Priberam

A origem da mentira é sem dúvida controversa, não sabemos muito bem como vai crescendo, quando damos por ela, já lá estamos dentro, os nós são cada vez mais apertados e dificultam o nosso próprio entendimento das coisas.
Começa por ser um engano propositado para ocultar uma atitude menos boa, para simplesmente nos divertirmos com a reação do outro, ou porque, no momento, facilita as coisas.
Passa a ser uma patranha bem elaborada, com contornos muito reais e, de repente, passa a fazer parte da realidade e começamos a viver a ilusão de que a mentira é verdade.
A maior mentira de todas é que aquela que há em nós, é aquela que nos faz olhar ao espelho e vermos outra pessoa, pintamo-la com maquilhagem de alta qualidade, arrebitamos o nariz e saímos de casa confiantes. Pintamo-nos para os outros e esquecemo-nos de nós.
Até que um dia o espelho aponta. E com olhos de ver, reparamos naquilo que somos, na mentira que construímos. Está em nós. A ilusão está criada. Há quem já nos tenha “visto”, há quem já tenha tentado virar o espelho para nós, mas a venda que pusemos não nos deixa ver.
As mentiras que mais me magoam são estas. Daqueles que não reparam em si, nas suas atitudes, na maneira como os seus gestos influenciam a vida dos outros.
Tirem a venda… reparem…