domingo, 22 de novembro de 2020

Na minha secretária os livros espalham-se, abrem-se em contos, em poemas, em histórias, em palavras, em imagens. Lá fora o sol brilha, radiante, aquece a sala, aquece o nosso corpo gelado pela falta dos que nos fazem falta. Ao longe o gato mia para ir à rua, os cães ladram à pessoa que passa. Ouvem-se os pássaros, os nossos condóminos da oliveira do pátio.

O meu olhar está fixo, como está sempre que tento encaixar peças. Umas imagens daqui, umas palavras dali, uma compreensão do oral, um listening, um writing, uma apresentação, um powtoon, um nearpod… o que se encaixa melhor? O que vai fazer com que entendam melhor? Que caminho devo trilhar para que a mensagem chegue? O que se torna mais divertido?

Passa uma hora, duas… continuo a tentar fazer com que a escape room funcione, raios.. ainda não foi desta.

A gata procura um lugar quentinho para se enroscar, os cães já estão abrigados. Não se ouvem mais os pássaros. O céu escurece, o sol já descansa enquanto a lua me acarinha com a sua luz e brilho… faz-me sorrir.

Será que vale a pena? Ai Fernando, tu sabes! Eu nessas tuas palavras. Nessa tua inquietação encontro-me tantas vezes.

“Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.”


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Não sentes?

 

Não sentes?

Estás nessa engrenagem louca. A máquina da vida está a andar e tu estás nela. Não sentes? Estás, como uma peça oleada, em pleno funcionamento. Giras, andas, produzes, fazes, desfazes, refazes, vais, vens. E amanhã? Acontece tudo de novo.

Não te importas?

Os dias parecem iguais. Ao teu redor o mesmo de sempre. E tu deixas-te ir. Não te importas que a engrenagem te leve? Afinal, quem és tu? Um instrumento? Uma ferramenta? Uma peça igual a tantas outras, uma peça funcional.

Já te procuraste?

Para. Deixa tudo por um tempo. Olha para ti. Não és apenas uma peça destinada a ser mais uma. Olha bem. Será que te conheces? Quem és para ti? Quem queres ser? Que brilho queres deixar nesta vida?

Silêncio

Não deixes que o ruído da máquina da vida te tolde. Não deixes que te anule. Deixa que o silêncio fale contigo. Descobre o mistério da tua vida. Já deverias saber que não és uma peça funcional, és a peça fundamental. És a única peça da tua vida.

Afinal, como queres que a máquina da tua vida se mova?

terça-feira, 28 de julho de 2020

Quem és?


Estou a tentar identificar-te hoje. Mas teimas em te esconder por trás de lágrimas, por baixo das saudades, navegando em lembranças, voando para o futuro num balão de ar quente instável, umas vezes quase tocando o sol, noutras navegando sobre as nuvens. Continuas a correr para o desconhecido, por vezes parando, por vezes desistindo, outras, desenfreadamente, vais, apenas vais.
Sei o que não és. Não há em ti aversão, irritação nem fúria. Há uma calma, aquela de quem aceita o que não pode mudar, aquela que vem da fé de que quem tu és vale por si.

Ao ver-te saltitando de memória em memória, identifico o brilho no teu olhar, és a alegria de quem viveu muitos e bons momentos, de quem se sentiu amado, de quem deu o seu melhor e isso bastou. És a alegria nos pequenos milagres de todos os dias, dos toques fugidios, mas sentidos, dos olhares ternos, dos momentos banais, comuns tão cheios de tudo, que nos completam, que nos preenchem.

Quando o teu olhar se perde no infinito do céu, quando o teu peito se enche de maresia, quando continuas balançando na corda sem saber se avanças, se saltas, eu sei quem és. O medo. O desconhecido é sempre o desafio que te alicia a experimentar, a tentar, a descobrir-te, mas é aquele que te pode desiludir, que te pode fazer falhar. Tão fácil que seria ser conformado.

E tu? O que andas aí a fazer? Não te foques nisso. Olha, foram bons momentos, foram felizes, se calhar nem lhes deste valor no momento. Mas agora consegues ver como te mudaram, como fizeram de ti quem és. O que trazes contigo dessas horas, desses dias, desses instantes? O que te mudou? O que fez de ti uma pessoa melhor? Anda, não olhes para esse lado… dirige o teu olhar para o futuro. Não fiques triste agarrado ao que não podes mudar. Transforma essa lagarta numa linda borboleta… Voa