sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Passarm 39 anos e 3 meses e uns dias



Passaram 39 anos e 3 meses e uns dias. Continuo a respirar todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos, a cada segundo que tic “taca” no relógio tirano, intransigente e inflexível.
Passaram 35 anos. A memória mais antiga que tenho, uma mão na mão, uma lágrima no rosto, uma tristeza imensa. Lembro-me dos rostos, dos semblantes pesados, mas não sei o que senti. Chorei? Entendi? Não sei. Oh que vazio fica por não saber, por não recordar. Tic tac tic tac
Passaram 32 anos. São flashes que vão e vêm. São imagens definidas, são camâras que olham para fora, que me descrevem a manhã e o fim de tarde… não sei o que foi o entretanto, não sei como foram os dias seguintes, não sei, mais uma vez, o que senti. E surge novamente o vazio, aquele vazio inquietante de não me lembrar, de não saber…E a casa é nova, e seria motivo de alegria e de conquista não fosse estar decorada pelo luto, pela tristeza, pela inquietação, pelo vazio. Tic tac tic tac
Passaram 32 anos. 13 de agosto. E ele surge. E vejo-o no berço ainda no hospital e sei que fui eu que escolhi o nome. E veio dar alguma alegria ao lar. Tic tac tic tac
Passaram 18 anos. 29 de setembro. Demos as mãos e decidimos construir caminho juntos. Tic tac tic tac
Passaram 12 anos. 21 de maio. Assumimos perante Deus o nosso compromisso. Tic tac tic tac
Passaram 11 anos. Partiu a minha segunda mãe. Despedimo-nos. Demos as mãos e perdoámos e sou feliz por isso. Tic tac tic tac
Passaram 10 anos. 8 de novembro. Que olhos grandes, que mãos pequenas, que ser frágil, mágico… e eu me tornei uma nova mulher, aquela que dá sem medida, que ama sem medida, que coloca o outro antes de qualquer coisa. Que viagem dolorosamente fantástica. Tic tac tic tac
Passaram 8 anos. 29 de maio. A única data que me recordo no rol dos dias maus. Tic tac tic  tac
Passaram 6 anos. 24 de julho. Demasiado cedo. Lágrimas. Ansiedade. Medo. Tanto que me ensinou a ser mãe, mulher, pessoa… e descubro que este amor desmesurado pode ser repartido, partilhado, pode ser a dois, a três ou a quatro. Tic tac tic tac
Passou um ano e cinco meses. Cortei a corrente. Tic tac tic tac
Entre uns e outros são tantos os momentos, são tantas as pessoas que se cruzam connosco. E embora pensemos que temos pontos chave nas nossas vidas, são os outros pontos chave, dos quais nem nos recordamos bem, que nos tornam as pessoas que somos, que nos fazem crescer. São as decisões entre umas coisas e outras, são as escolhas, são as palavras, os gestos, as atitudes que nos vão regando, que nos vão fortalecendo e fazendo crescer. Tic tac tic tac
E hoje foi um novo dia. Hoje tomaste novas decisões. Hoje escolheste aquelas palavras e não outras. Hoje desviaste um olhar que marcará a outra pessoa, deste um abraço que ficará no coração de alguém, não ligaste a quem te pediu e isso vai-te marcar para o resto da vida porque amanhã a pessoa já não estará cá. Tic tac tic tac
Cada hora, cada minuto, cada segundo tic tac tic tac, cada um importa, faz a diferença.
Faz deste momento a tua vida. Tic tac

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ser mãe

Vivia num ovo espelhado,
pequeno e atarracado.
Fazia o que queria,
em tranquilidade vivia,
numa paz e harmonia,
sem grandes preocupações,
sem grandes decisões.
E dali não saía.

Chegou assim sem querer,
não veio de cavalo branco
não é príncipe ou outra realeza qualquer.
Chegou com um sorriso,
com carinho meiguice
e um pouco de traquinice.
De mãos dadas fizemos caminho,
olhando na mesma direção.
Ouvimos o nosso coração.

No meu ventre três sementes cresceram,
duas vidas nasceram
e do meu ovo saí.
O mundo agora é diferente
e tudo em mim mudou.
A minha vez de ser mãe chegou.

Nada em mim agora é certo,
nunca sei o que fazer:
Deve estar fechado ou aberto?
Deve ficar quente ou frio?
Com ou sem cobertor?
Vamos agora ao doutor?
Com manteiga ou Nutella?
Nesta escola ou naquela?
Com ou sem castigo?
Estás chateada comigo?
Oh mundo de preocupações,
das grandes decisões.

Sinto as mãos delas nas  minhas,
os seus braços me envolvem.
Os sorrisos mais sinceros que conheço.
Os beijos mais doces do mundo.
As cumplicidades, as brincadeiras.
A flor arrancada só para mim.
O brilho do olhar quando encontra o meu.

Que coisa boa esta de ser mãe.
O amor é puro e desmedido,
sincero e correspondido.
É uma espécie de abrigo
nos dias de chuva e tristeza,
em que há desânimo e falta de força.
Dá-nos uma espécie de leveza,
ao coração cansado
que fica logo rendido
à doçura deste amor.

O reino das crianças

Num certo reino de fantasia
habitava a doideira e a alegria.
Duas meninas lá viviam.
Bolas de sabão,
balões cor de rosa,
amigos imaginários,
baloiços,
escorregas aqui e além
e muita música também.

Neste reino de fantasia
as meninas brincavam
riam e dançavam.
Dizia-se que tinham poderes
daqueles que são mágicos.
Numa bola de sabão
eis que surge a ilusão:
a Joana sentada no dragão.
- Tem cuidado, Joana,
pode atacar-te o dragão.
Mas a Joana não ouve,
ri, pula e dança
faz rodar a sua trança
e cai redonda no chão.
Ri-se a Pipa, a Daniela
e vai-se a Joana pela janela,
em cima do dragão,
dentro da bola de sabão.

Num reino mais além
vivem os adultos, como convém.
Seres estranhos e diferentes
sem sonhos, sem fantasia.
Falta-lhes tanto a alegria!
Cabisbaixos, resmungões,
os adultos são pequenas desilusões.
Fazem birras, falam alto
não ouvem, não dão atenção.
Oh adultos sem coração !

Lembram-se dos poderes mágicos?

A Pipa faz uma bola de sabão.
A Daniela coloca lá um coração.
Lançam a bola de sabão,
lançam um beijinho vindo do coração.
Então, o mundo dos adultos
que fazem birra, falam alto,
não ouvem, não dão atenção,
fica um arco íris de cores.

Vão-se embora as dores.
Sentam-se os adultos nos baloiços,
ouvem música sem parar,
dançam e riem até fartar.
Viajam com o dragão,
dão à Joana a mão,
 e recuperam o coração.

E tudo fica mais doce.
E tudo fica melhor.
Quando reina a felicidade,
quando se esquece a idade,
o reino do adulto
vira reino da fantasia
com a ajuda da alegria
que a criança irradia.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Se me dissessem há um ano que hoje estaria aqui, provavelmente rir-me-ia na cara da pessoa e diria que tal seria impossível.
Foi, sem dúvida, um ano muito atípico.  Primeiro a DECISÃO mais difícil que tomei na minha vida até hoje, depois todas as voltas que a vida me vai dando.
Esta marota, a vida, vai-me mostrando que devemos dar pontapés no im do impossível. E eu dou. Mas depois ela mostra-me que as coisas não são lineares, não são fáceis, e muitas das vezes, nem justas.
Depois de fazer estágio pensei que tinha chegado o momento de tudo ficar calmo, até calmo em demasia, mas fui colocada nas AEC… vamos lá então, pensei eu que ficaria ali até ao final do ano com as minhas pequenas, traquinas, marotas e fofas criaturas. Pois, não.
Eis que acontece o inesperado e ligam-me da escola para onde enviei um currículo por engano. De mês para mês houve a incerteza. Nunca soube se ficaria por mais um mês ou mais…
Depois as listas provisórias... trabalhei imenso, dei o que tinha e o que não tinha, despendi dinheiro que fazia falta à família, tempo em família, empenhei-me imenso… mesmo muito e a desilusão foi uma forte chapada que ficou marcada, ardente, rubra…

E agora?
Agora mais do mesmo: incerteza, vontade, luta.
Daqui a um ano???

😊

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Hoje não me falem de justiça
Hoje não me falem de amizade
Não me falem de compromisso
Não me falem de humildade

O justo para mim é injusto para ti
A amizade para mim é genuína, para ti não sei
O compromisso é uma aliança, para ti um círculo quebrado
Humildade é colocar-me no lugar do outro, para ti é olhar o teu umbigo

A lágrima desiludida escoa lentamente pelo rosto à procura de local incerto para ficar
A cabeça descai na almofada na esperança de encontrar um abrigo
Os olhos ficam vagos no vazio na expectativa de encontrar esperança
O corpo adormecido não se mexe
A respiração é lenta
O coração bate por necessidade, por instinto, porque sim

Hoje é assim.

Amanhã não será.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Vamos lá então

Tenho o ferro e toda a roupa da população cá de casa em espera. Algo me inquieta e os pensamentos não param... tenho de os abrandar, tenho de os aprisionar aqui, talvez assim tudo se torne mais claro e comece tudo a fazer sentido.
Escolhemos percursos na nossa vida que sabemos que irão ser um desafio à pessoa que somos. Reunimos as nossas forças, os nossos familiares, os nossos amigos e, com este exército reunido, marchamos sem medo, sabendo que haverá sempre quem nos ampare,quem nos segure, que ria connosco, quem limpe as nossas lágrimas. Finalmente chega o fim do percurso, respiramos de alívio, levantamos orgulhosamente a bandeira e damos por encerrado o capítulo. Pois, mas comigo não é assim. Nada na minha vida, e talvez na tua também, flui sem percalços, surgem sempre mais obstáculos depois dos obstáculos, mais uma  montanha gigante depois de escalar aquela que era mesmo enorme.
 Por vezes queremos só ver o fim. Já lutei, fiz toda a minha parte, o que podia, o que não podia, dei tudo o que tinha, dei mais do que podia dar, tirei de mim o que já me faz falta e ainda me pedem mais.
Agora, que já não depende de mim, o que posso fazer?
Bem...continuar a ser eu, a dar-me sem medida na esperança de que tudo flua. Talvez respirar fundo umas quantas vezes, colocar um sorriso e o meu destino nas mãos de Deus. Ter fé. Acreditar que vai haver um raio de luz neste percurso e umas gotas de água bem fresca.
Não posso deixar que uma aragem mais desvairada me derrube, que a pedra da desilusão me faça tropeçar. Tenho de me erguer e continuar confiante...

Bem, acho que agora posso terminar a minha tarefa doméstica...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dream

São caminhos que se abrem à nossa frente. São escolhas que podemos fazer. São percursos que optamos por não fazer. São consequências.
Nos últimos dois anos deixei de ser morninha. Vivia a minha vida naquela rotina chata, a fazer algo que não me enchia as medidas, a sobreviver aos dias com o peso da tristeza e da insatisfação nos meus olhos, nos meus lábios. Dentro de mim crescia uma nuvem negra que se alastrava, que me dominava, que me afastava de mim mesma.
Ser morninha não é para mim. Sei que Deus espera mais. Sei que o melhor de mim está para vir e que o tempo não me dá mais tempo. Aqui e agora. É hora!
Depois há aqueles momentos chave da nossa vida. E o telefone toca e nós atendemos. E de repente estou deslumbrada por estudar de novo, sinto-me realizada, sinto-me mais eu, sinto-me desperta… a nuvem vai-se dissipando, aos poucos.
Não quero ser mais morninha. Largo o certo pelo incerto. Acredito em mim, acredito no que sou capaz. Sei que sou melhor, sei ser melhor e que Deus me ajude porque não vou baixar os braços.
Depois há um mail. E não vai para onde nós pensávamos que ia… mas foi… e passados uns meses ligam-nos. E ali estou, no sítio onde sempre quis estar. E estou nervosa, mas tão, mas tão feliz.
Agora há sol e vê-se. Basta reparar no meu olhar, o meu sorriso voltou, a minha alegria regressou e estou de braços abertos para os receber. Não. Não sei o dia de amanhã. Sei, sei que vou andar sempre na incerteza. Mas sei que darei sempre o meu melhor. Não duvido do que sou capaz. Fui escolhida e escolho este caminho. É esta a minha missão.

E quando um menino na catequese me pergunta se eu vi Deus fisicamente, eu digo-lhe que sim. Ele esteve na forma de vara bifurcada na praia no dia que decidi ir ouvir o mar, ele estava nas minhas mãos quando me enganei a enviar o mail, ele sussurra-me ao ouvido convidando-me a concretizar a minha missão. Tu não o vês? Não o ouves? Tens de estar mais atento.