Aquele seria o seu primeiro dia
de escola. Pegou-me na mão e caminhámos lado a lado em direção à escola, onde a
professora primária se propunha a ensinar pessoas adultas a ler e a escrever. A
minha avó estava verdadeiramente entusiasmada. Poder vir a assinar o seu nome
era uma ambição que tinha há muito. Tinha então sessenta e qualquer coisa, e
até ao fim da sua vida fez sempre questão de assinar o seu nome, e de ler
livros que estavam ao seu alcance.
Hoje em dia, ler e escrever é um
dado adquirido, melhor, ou pior, a maior parte das pessoas sabe escrever, e uma
menor parte das pessoas lá vai lendo um ou outro livro. Mas saber escrever bem
é uma arte e saber ler bem também o é. A leitura e a escrita são essenciais
para a nossa sobrevivência. O saber interpretar, a escolha das palavras certas,
palavras que nos arrancam sorrisos, suspiros, lágrimas, alento… o poder da palavra bem proferida é imenso….
Saber dominar, manejar e
administrar as palavras é algo que almejo, é algo que admiro naqueles que o
fazem bem, chegando a invejar a destreza, a inteligência e o domínio desta
nossa língua tão rica, tão linda, tão mágica.
Não, não consigo entender. Tenho
este amor cá dentro pela literatura e quero muito que os jovens que estudam
comigo sejam atingidos pela seta deste Cupido. Mas nada posso fazer, na escola
o Cupido é atado ao quadro negro da sala de aula, e a sua seta colocado no
lixo. Entopem as crianças com leituras obrigatórias, que tem de ser, que tem de
ler, esquecendo que primeiro temos de os ensinar a amar, temos de lhes provar
que tem de haver uma relação amorosa entre nós e o livro, que devemos amar
tocar no livro, folhear as páginas, beber cada palavra como fosse um sumo de
laranja bem fresco no dia quente de verão. Saborear o livro, deliciar-se com a
história, ter vontade de contar ao mundo aquilo que viveu quando o leu… isto
pode-se ensinar.
Fico triste e com um pouco de
raiva quando me apercebo que os jovens chegam até mim dizendo que português é
uma seca… quando fazem “burro” se os obrigo a treinar a escrita, a serem
perfeitos, a pensarem, a descreverem, a explicarem as coisas. Que adultos serão
se não se souberem explicar, se não souberam interpretar? Ah, se ao menos eu
pudesse… mudaria algumas coisas.
Leiam… abram portas, janelas e
estiquem-se na espreguiçadeira na varanda da leitura, apreciem o momento, vivam…