terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A língua portuguesa


Aquele seria o seu primeiro dia de escola. Pegou-me na mão e caminhámos lado a lado em direção à escola, onde a professora primária se propunha a ensinar pessoas adultas a ler e a escrever. A minha avó estava verdadeiramente entusiasmada. Poder vir a assinar o seu nome era uma ambição que tinha há muito. Tinha então sessenta e qualquer coisa, e até ao fim da sua vida fez sempre questão de assinar o seu nome, e de ler livros que estavam ao seu alcance.
Hoje em dia, ler e escrever é um dado adquirido, melhor, ou pior, a maior parte das pessoas sabe escrever, e uma menor parte das pessoas lá vai lendo um ou outro livro. Mas saber escrever bem é uma arte e saber ler bem também o é. A leitura e a escrita são essenciais para a nossa sobrevivência. O saber interpretar, a escolha das palavras certas, palavras que nos arrancam sorrisos, suspiros, lágrimas, alento… o poder da palavra bem proferida é imenso….
Saber dominar, manejar e administrar as palavras é algo que almejo, é algo que admiro naqueles que o fazem bem, chegando a invejar a destreza, a inteligência e o domínio desta nossa língua tão rica, tão linda, tão mágica.
Não, não consigo entender. Tenho este amor cá dentro pela literatura e quero muito que os jovens que estudam comigo sejam atingidos pela seta deste Cupido. Mas nada posso fazer, na escola o Cupido é atado ao quadro negro da sala de aula, e a sua seta colocado no lixo. Entopem as crianças com leituras obrigatórias, que tem de ser, que tem de ler, esquecendo que primeiro temos de os ensinar a amar, temos de lhes provar que tem de haver uma relação amorosa entre nós e o livro, que devemos amar tocar no livro, folhear as páginas, beber cada palavra como fosse um sumo de laranja bem fresco no dia quente de verão. Saborear o livro, deliciar-se com a história, ter vontade de contar ao mundo aquilo que viveu quando o leu… isto pode-se ensinar.
Fico triste e com um pouco de raiva quando me apercebo que os jovens chegam até mim dizendo que português é uma seca… quando fazem “burro” se os obrigo a treinar a escrita, a serem perfeitos, a pensarem, a descreverem, a explicarem as coisas. Que adultos serão se não se souberem explicar, se não souberam interpretar? Ah, se ao menos eu pudesse… mudaria algumas coisas.
Leiam… abram portas, janelas e estiquem-se na espreguiçadeira na varanda da leitura, apreciem o momento, vivam…

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


E que caia esta lágrima que trago
Que caia pesada e dorida
Ferida pela mágoa

Que deslize no meu rosto marcado
Pela dor, pela desilusão
Ou talvez pela ilusão

Que vida é esta que trago?
Ando enganada contigo, vida.
Afinal era isto que tinhas para mim?
Com uma mão estendes-me o estio ardente
Com a outra o inverno gelado

Que caminhos são estes?
Para onde me levas?
Sou impotente.
Nada há fazer?

Escurecem os céus
Rebentam em trovões desvairados
E cai a chuva
Mistura-se com a minha lágrima

Te imploro que me mostres esse arco iris
Que me mostres esse raio de sol

Basta!
Chega!

Extenuada do caminho
Enfraquecida pelos ventos e pelas lamas
Vou na corrente…

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Desalento




Que desalento este que eu sinto
Pois sei e sinto que minto
Não me conheço, estou a desistir
Dos meus sonhos seguir

Sou qual borboleta sem cor
Sem graça, sem esplendor
Vagueando perdida
Tentando sarar a ferida

Sou farol encalhado
Numa praia ancorado
Rodeado de areia e ar
Sem a brisa e sem o mar

Sou criança sem brilho no olhar
Sem ter com quem brincar
Sou televisão sem imagem
Uma ponte sem passagem


E acabam-se as forças em mim
E com desagrado vejo-me assim
Um ser inútil e definhado
Pela sociedade atrofiado

Ana Pinto