A minha infância?
Tive duas irmãs. Vivendo quase lado a lado
brincávamos na estrada, apanhávamos amoras, corríamos, jogávamos às escondidas.
Depois mudei de casa. Nasceu o meu irmão. E passámos a ser 4. 4 em cima da
carrinha de caixa aberta a caminho da aventura. 3 a fazer cócegas no mais
pequeno. Ele a mijar-se a rir e nós quase lá. Ele a cantar “Oh agostinho que
rico vinho”. Eu a fazer birras porque não queria lavar os pés, porque não
queria estar ali porque obrigavam-me a comer. “Em casa deste homem, quem não
trabalha não come.” Elas a força da terra, o cheiro do sal, eu um pouco flor de
estufa.
Os anos passaram. Aprendi a nadar
com elas, a dançar nos bailes com elas. Passei as minhas melhores passagens de
ano. Os melhores dias de praia, os melhores lanches. Apanhámos caranguejos,
berbigões, caímos ao rio do bote. Atravessámos o rio desafiando as nossas
forças. E se o fiz foi porque elas estavam lá, prontas a estar ali no momento
que eu precisasse.
Há cheiros que me trazem
sorrisos, há dias em que o vento me traz de volta a descida íngreme ao lado da
igreja em que a bicicleta quase que voava rua abaixo. A sensação do lodo nos
pés, das cascas a fazerem cortes, os caranguejos que nos picavam. O chão da
salina seco onde jogávamos com uma bola. Os viveiros que invadíamos para ir ao
banho. O dia em que tiramos os fatos de banho dentro de água.
Depois o dia em que parámos o
carro para dar abrigo ao Simba. O seu ar assustado derreteu-nos os corações e
mesmo todo sarnento lá veio o cachorrinho no meu colo pronto a ser socorrido. O
dia em que Xena foi lá para casa cega, pequena e assustada. Mesmo cega a gata
sabia sempre onde ir, como subir as escadas e procurar o mimo das donas. Poderiam
não ser os meus animais mas sempre os amei como tal, porque aquela casa era
também a nossa. Ali sempre nos sentimos bem-vindos, amados e acima de tudo
felizes.
E em todos estes dias houve uma
mulher. Que tornava a terra fértil com as suas mãos fortes, cavando com força,
volvendo, trabalhando a terra para dela tirar o sustento. Puxava a água do poço
com uma corda para regar o quintal apanhando das árvores os frutos que
acalmavam a sua sede. Rodilha à cabeça, pés descalços nas salinas. Pés que
dançavam ao som das músicas dos bailes, mãos que seguravam as minhas para me
ensinar. Sempre, mas sempre de sorriso nos lábios, sempre com assunto para a conversa,
sempre pronta a refilar disto ou daquilo, sempre com a gargalhada pronta a sair
e a marotice toda no olhar. Sempre nos ensinou a ser meigas com os animais, a
dar valor ao pouco que tínhamos, a tirar partido das coisas, a dar valor ao nosso
trabalho, a sermos humildes e generosas mas sempre lutando pelo que temos
direito. Assim são agora as duas filhas e as duas netas. Eu sou só a sobrinha.
Escrevo para que o tempo não me
apague memórias. Para que torne eterno aquilo que foste. Para que se dê valor
ao que temos hoje porque amanhã pode não estar. Para que se ame enquanto se
vive. Para me lembrar que o único meio para o sucesso é o trabalho, a humildade
e a sabedoria de estarmos em paz com o que somos porque damos o nosso melhor. Escrevo
porque te amo e tive a oportunidade de to dizer.
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