Sou um 15. Um meio. Não sou 10, nem sou 20… apenas
um 15. Uma medida que me classifica. Sabes, um 15?
Enquanto vagueio pelas ruas, olho distraidamente as
pessoas. Penso em classifica-las. Tu aí, tu és um 12. Mas tu, fogo, um 18, sem
dúvida. E agora tu, que estás a ler esta treta de texto, és um 10. Quero mandar
as normas e as classificações para bem longe. Lá para as terrinhas delas. Quem
as inventou? Quem disse que tinha de haver um padrão? Padronizar, uniformizar,
estandardizar. Porra para tanto ar. É mais fácil assim? Pois, sei que sim.
Assim me exige a profissão. Leio, classifico, escrevo a roxo no local destinado
para o efeito. A vermelho não. Não gosto de ser normal.
Quero ser única, quero ser eu, sem normas, sem
regras. Assim como sou. Não tenho que ser como os outros, não tenho que ser
ovelha branca no rebanho, nem ser a ovelha negra, porque essa também é uma
norma. Todos querem ser a ovelha ronhosa, porque diferente. Quero ser eu,
porra, sem ser negra, branca ou ronhosa…. Eu, percebem? Eu.
Não sou um número, não sou um nome, sou mais que
isso, eu sei que sim. Estou cheia de mim, toda eu sou eu. Tenho em mim sonhos,
ideias, sentimentos, beleza e ambições. Tenho em mim um pouco disto e daquilo,
muito de ti e de ti e mais um pouco daquele. E tudo isto me vai enchendo, como
se enche um balão de ar quente, dando-me forma, e ar para voar, para me perder
por esta vida, saboreando as rajadas de vento e o frio na ponta do nariz.
Não sou um corpo, ou um rosto, sou eu. Consegues
ver? Como diria Saramago, então repara.
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