Vagueio pelas ruas ruidosas, onde
os seres se movem com rapidez. O tabaco dos outros esbofeteia-me e as minhas
mãos enterram-se cada vez mais nos bolsos. Os meus pensamentos andam dispersos
e não consigo focar um problema. São peças soltas que não se encaixam, são
palavras que não se entendem, cordas puxadas para lados opostos…
Os meus olhos focam o chão. Não
me quero cruzar com ninguém. Não quero ver nos outros o que há em mim. Quero-os
longe, afastados. Mas sinto-lhes os cheiros e ouço os passos. E por dois
segundos fecho os olhos.
O cheiro é o da primeira terra
molhada depois de um dia de calor insuportável, sinto na minha pele a frescura
da água que me escorre pelo rosto, sinto o sabor do nada, o sabor da terra, o
sabor da chuva. Há arbustos, árvores e relva. E as mãos escapam-se dos bolsos e
abro os braços e olho o céu cinzento e deixo que o sorriso se liberte de mim e
deixo-me ir.
E caio. O buraco é fundo, é frio,
tem água que me cobre os pés… olho para cima e grito. Peço ajuda com toda a
força que tenho. Mas vão passando, espreitando curiosas algumas até divertidas.
Está frio. Não consigo sentir os
pés. Não há lágrimas, apenas lamúrias.
Lamento o tempo perdido em busca
de um sonho que nunca concretizarei. Lamento o esforço que foi feito para
equilibrar o que nunca foi equilibrado. Lamento tudo o que dei de mim. Em vão. Para
nada.
Mas sou mais que isto. Mais leve
que um corpo, mais sã que um ser humano magoado, enlameado. E sinto a força que
há em mim. E em mim o amor transforma-se em magia. E enlevo-me no ar. E num
balão de ar quente persigo-te, luz. Vou em direção a esse amanhecer.
Quero ver-te nascer.
Quero prender-te em mim e
fazer-me feliz.
E amanhã, quando a luz surgir de novo, fazendo
raiar um novo dia, lá estarei para ser feliz de novo.
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