sábado, 7 de julho de 2012


O riso dela quebrou o silêncio. Virou costas e saiu.



Durante uns segundos pareceu-lhe ouvir a velha cassete de vídeo a fazer um rewind: um beijo intenso e apaixonado, dois corpos juntos numa aflição, mãos dadas ao luar, estrelas contadas deitados na areia, juras eternas, olhares fundidos, risos graciosos, autênticos. Eram tão jovens nessa altura.



Fast forward: Onde andavam aqueles enamorados, apaixonados pela vida, um pelo outro? Cheios de vida, de objetivos, cheios de si mesmos. Nos últimos tempos os beijos são meros encostar de lábios que cordialmente se cumprimentam. Os corpos raramente se encontram, dessincronizados, egoístas, desapaixonados. As conversas são ladainhas ensaiadas pelos tempos, são frases atiradas, lançadas para os ouvidos um do outro sem qualquer laivo de sentimento, desprovidas de cumplicidade. No ar a nuvem negra do fatalismo. Ambos sabiam.



Rewind: Naquele dia ele vinha com o brilho de outros tempos nos olhos. Falava com ela mas estava distante. Sorria. Mas não era para ela. Ela sentiu. Ela sabia. Sexto sentido? Não. Apenas a argúcia. Conhecia-lhe os gestos, os olhares, a linguagem do seu corpo. Sabia que já não era amada. Já há um tempo que a magia (a tesão) tinha desaparecido.



Play: O telefone tocou. Era ele. Numa voz apagada disse-lhe que queria falar com ela. Conversa da treta. Todo o ser humano sabe o que isso significa. A nuvem negra andava carregada de discussões, de faltas de entendimento, de faltas de sexo. Combinaram encontrar-se.

- As coisas não têm andado bem entre nós. A culpa não é tua. Sou eu que ando estranho. Talvez tenha mudado. Conheci outra pessoa que me fez ver que não sou feliz contigo. Quero que sejas feliz, e eu não sou capaz de te dar essa felicidade.



Ela ouvia-o. Afinal já estava à espera daquela conversa. Sabia que era inadiável. Houve um silêncio prolongado. Ele esperava que ela chorasse, que se agarrasse a ele implorando para ele ficar, para tentar mais uma vez. E ela nada. Só o silêncio.



O riso dela quebrou o silêncio. Voltou costas e deixou-o ali sozinho. Não iria chorar. Não, porque ela queria aquilo. Riu com vontade. Aquelas palavras proferidas por ele eram as mais ridículas que tinha ouvido. Cheias de falsidade e hipocrisia. Ainda bem que acabou, ela estava livre. Livre para viver longe das correntes da relação porque sim.



STOP.

Sem comentários:

Enviar um comentário