sábado, 14 de julho de 2012


- Mateus comunicações, bom dia. Em que posso ajudá-lo? Só um momento, vou passar a chamada.

Estou farta. Todos os dias as mesmas discussões, as mesmas palavras aguçadas que se lançam em velocidade pelo ar, que magoam, que ferem. Os gritos que ecoam de uma divisão para a outra. Bato com a port,a com toda a minha força e desço as escadas do prédio. Os vizinhos dizem os bons dias de cabeça baixa, olham-me com constrangimento, mais envergonhados do que eu, que, revolvida do avesso, fora de mim, não quero saber se ouvem ou não os palavrões bramidos, sofridos e sentidos que profiro.

- Mateus comunicações, bom dia. Sim chefe, já lhe ligo a confirmar essa situação. Até já.

Todos os dias me acusa de não fazer nada em casa. É porque não limpo o pó, é porque a roupa não está passada, é porque não faço o jantar. Porque não vou às compras, porque só faço despesas desnecessárias (não vivo sem o batom, sem a mala a condizer com os sapatos. E as unhas de gel, como posso viver sem elas?). Não posso sair para tomar café com as amigas sem ouvir uma palavra de desagrado, não posso sair aos fins-de-semana sem que me acuse de ser leviana, ordinária, vulgar.

- Mateus comunicações. Bom dia Sr. Jorge, como tem passado? Queria confirmar a encomenda feita ontem.

Mas hoje vou por um ponto final nisto. Vou-lhe ligar. Não posso dizer-lhe cara a cara que já não vou viver mais com ela, porque vai fazer aquela cara de angústia que lhe conheço tão bem. Aquela cara de mãe que sabe que a filha não tem capacidade para viver sozinha e arcar com as despesas. Vai-me dizer que estamos em época de crise, que eu sou tudo o que ela tem. E eu vou-lhe gritar aos ouvidos que a minha crise é viver com ela e ela que vá tomar chá com as amigas se quer companhia. Ligo-lhe. Assim não me demovo.

- Sim, Sr Jorge, é isso mesmo. Aguardamos então a entrega. Bom dia.

É agora, vou-lhe ligar.

- Estou sim? Há umas quantas coisas que lhe quero dizer, nem ouse responder-me. Ouça apenas. Estou cansada desta situação. Tento dar o meu melhor e nunca reconhece isso. Quero por um termo a esta situação.

- Não há problema Joana, se o seu trabalho não a agrada, está despedida.

- Chefe?

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