quinta-feira, 28 de junho de 2012


Trac, trac… trac trac… nada… não se ouvia nada.

Insisto mais uma vez. Trac, trac…. Nada…

Ai, que angústia! Os meus olhos são desespero, são irritação, impaciência.

Sim, consigo ver-vos. Melhor que isso, sei quem vocês são. Passam, todos os dias. Falam, todos os dias. Cospem, todos os dias. Fumam, ralham, bufam, vociferam, suspiram, inspiram, expiram, olham...mas não veem. Eu vejo. Eu sei.

Trac, trac… nada

A menina do café, insegura, sem graça, passa. Leva o fumegante na mão, não porque sinta prazer no ato em si, mas porque não sabe o que fazer com as mãos. Se eu lhe pegasse nas mãos mostrava-lhe o que fazer com elas, explorava-a, desbravava-a, desabrochava-a. Fazia dela a gaja do café, segura e cheia de graça.

Trac… trac… nada. NADA! Nada…

Eu sei. Sei do rapaz da mochila vermelha. Todos os dias chega uns minutos mais cedo para que o seu olhar se perca nela, para poder desejá-la mais de perto, tão de longe. Sei delas. Desfazem-se em sorrisos, abraços e assim que as costas se voltam, o sorriso dá lugar ao olhar invejoso e traiçoeiro. Sei. Da viúva que chora o marido sem saber que havia outra família. Sei. A paixão secreta do padre. Sei. Sei, porque vejo.

Trac … trac… Nada.

Ouço-a chegar aos saltitos. Estende-me o braço. Na sua mão duas pilhas. Ela sim. Ela vê-me. Ela sabe-me. Os outros passam, olham com asco para o mendigo. Ela senta-se ao meu lado e aninha a sua criancice a mim.

O meu coração acalma. Agora sim, deixo de os ver. Não quero saber. Só me quero ouvir. Ouvir a minha voz límpida que me transporta para longe dali.

- Vá, põe a música!



Trac.

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