Quero descrever o que anda cá
dentro, abafado, espezinhado, sem voz, mas as palavras escapam. Corro atrás
delas, tento apanhá-las mas fogem-me por entre os dedos. E finalmente quando
uma ou outra ficam, transformam-se dando lugar a palavras completamente
diferentes.
Percorro o dicionário com os meus dedos à
procura das palavras certas mas estas sorriem para mim com olhos safados à
medida que se ocultam entre as folhas e perco-as de vista e nunca encontro a
palavra, aquela, a certa. Mas são tantas, porquê? Por que razão não a encontro?
Escapulem-se, esquivam-se e fico perdida, angustiada, danada…
Pego então num livro para me abstrair,
para entrar noutra história que não a minha, para me evaporar por uns tempos e
viver a vida de outra pessoa. Sento-me descontraidamente no sofá deixando que
as minhas pernas pesadas descansem nas almofadas fofas, os óculos pesadamente
colocados sobre o nariz e a mente ávida pelo desenrolar da história. Suspiro fundo,
fecho os olhos por breves momentos antecipando o momento de prazer que vou ter
de seguida. As minhas mãos perdem-se por entre as folhas, acariciando cada página,
amando cada palavra. Palavra. Palavras… cá estão elas novamente. Todas juntinhas
formando frases imortais, ideias imperecíveis, imagens singulares, histórias
que ficarão para sempre comigo. Bruscamente fecho o livro. Os meus óculos são
arrancados da cara e o meu corpo ergue-se de rompante e em passos pesados
dirijo-me para a rua.
Na minha mente as palavras vão dançando,
ébrias, titubeantes, inseguras sem forças… não consigo encontrar a caixa. A caixa
que está vazia…. Quero que a minha mente se cale, quero fechar as caixas das palavras,
estão desorganizadas, apinhadas, desarranjadas…. Quero uma caixa vazia… uma
caixa onde possa começar do zero, onde a primeira palavras seja aquela… a
certa.
Volto a casa. Estou cansada, extenuada,
sem forças com a mente repleta de tudo e de nada. Sento-me no jardim. Ouço o
barulho da rua, e aos poucos as palavras vão-se arrumando, umas a seguir às
outras vão entrando nas caixinhas. Todas as caixas estão fechadas. Ouço o mundo,
a vida, o burburinho normal de um dia de semana. E abre-se uma caixa… está
vazia. A minha mão alcança um lápis e um pedaço de papel….
“Quero descrever o que anda cá
dentro…”
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