domingo, 10 de junho de 2012

Palavras


Quero descrever o que anda cá dentro, abafado, espezinhado, sem voz, mas as palavras escapam. Corro atrás delas, tento apanhá-las mas fogem-me por entre os dedos. E finalmente quando uma ou outra ficam, transformam-se dando lugar a palavras completamente diferentes.

 Percorro o dicionário com os meus dedos à procura das palavras certas mas estas sorriem para mim com olhos safados à medida que se ocultam entre as folhas e perco-as de vista e nunca encontro a palavra, aquela, a certa. Mas são tantas, porquê? Por que razão não a encontro? Escapulem-se, esquivam-se e fico perdida, angustiada, danada…

Pego então num livro para me abstrair, para entrar noutra história que não a minha, para me evaporar por uns tempos e viver a vida de outra pessoa. Sento-me descontraidamente no sofá deixando que as minhas pernas pesadas descansem nas almofadas fofas, os óculos pesadamente colocados sobre o nariz e a mente ávida pelo desenrolar da história. Suspiro fundo, fecho os olhos por breves momentos antecipando o momento de prazer que vou ter de seguida. As minhas mãos perdem-se por entre as folhas, acariciando cada página, amando cada palavra. Palavra. Palavras… cá estão elas novamente. Todas juntinhas formando frases imortais, ideias imperecíveis, imagens singulares, histórias que ficarão para sempre comigo. Bruscamente fecho o livro. Os meus óculos são arrancados da cara e o meu corpo ergue-se de rompante e em passos pesados dirijo-me para a rua.

Na minha mente as palavras vão dançando, ébrias, titubeantes, inseguras sem forças… não consigo encontrar a caixa. A caixa que está vazia…. Quero que a minha mente se cale, quero fechar as caixas das palavras, estão desorganizadas, apinhadas, desarranjadas…. Quero uma caixa vazia… uma caixa onde possa começar do zero, onde a primeira palavras seja aquela… a certa.

Volto a casa. Estou cansada, extenuada, sem forças com a mente repleta de tudo e de nada. Sento-me no jardim. Ouço o barulho da rua, e aos poucos as palavras vão-se arrumando, umas a seguir às outras vão entrando nas caixinhas. Todas as caixas estão fechadas. Ouço o mundo, a vida, o burburinho normal de um dia de semana. E abre-se uma caixa… está vazia. A minha mão alcança um lápis e um pedaço de papel….

“Quero descrever o que anda cá dentro…”

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