terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Brilha, brilha lá no céu!


Olho a minha árvore de Natal, cheia de luzes de várias cores que piscam incessantemente, com bolas vermelhas polidas, bolas vermelhas com motivos douradas, bolas vermelhas foscas, bolas vermelhas rugosas, laços dourados, fita dourada e mesmo no topo a estrela que dá vida a todo o verde artificial da árvore.

Noutros tempos íamos de podoa na mão escolher a melhor árvore. Não podia ser muito grande, nem muito pequena e os ramos não podiam ser muito assimétricos. Colocava-se dentro de um balde cheio de areia que depois era forrado a papel. Acho que ainda sinto o cheiro do pinheiro misturado na areia e o papel meio húmido de estar guardado há um bom tempo. Os ramos eram enfeitados com luzes, duas ou três gambiarras com diferentes formas, de diferentes cores que se fundiam de uns anos para os outros e substituíam-se à última da hora. Havia bolas de várias cores, estrelas, bonecos e mais o que se achasse engraçado… também havia chocolates, mas não duravam até ao Natal. Por fim colocavam-se as fitas coloridas que se espalhavam por todo o lado. Colavam-se botas e fitas nas paredes subindo às cadeiras e como que se sentia já o cheirinho das filhoses, das rabanadas e já se vislumbrava o alguidar gigantesco em cima da mesa de pedra cheio de massa alaranjada escaldada pela água. E partiam-se as nozes e escolhiam-se os pinhões e as passas e a lareira estava sempre acesa e a chama aquecia os corações e amolecia os humores.

As prendas já tinham chegado. Sabíamos bem. Corríamos a casa numa caça ao tesouro desenfreada. Quase sempre o encontrávamos estragando a surpresa do dia. Mas recordo uma boneca, talvez, numa caixa grande (o que eu queria era bonecas em caixas rosa e grandes) em cima do fogão a lenha, numa casa que já nem me recordo bem como era. Recordo a pulseira numa caixinha aprumada e muito requintada (até poderia não ser, mas para mim era assim), recordo a boneca de pano azul….

São muitas as memórias que o tempo apagou e que gostaria de ter guardado na minha caixinha da vida, para poderem ser revividas uma e outra vez. Ficam-me os cheiros, as vozes, as cores, os sabores… e fica aqui bem guardado, aqui neste canto, uma memória que resistirá à borracha implacável do tempo. Aquele olhar terno e sofredor de quem perdeu um filho, mas que está grato por ver a restante família a comemorar mais um Natal. Havia sempre uma lágrima teimosa que nos lembrava que faltava ali alguém. Aquela mãe nunca esquecia, nem nunca escondia, aquela dor agonizante de passar um Natal sem uma das suas crias.

 Os Natais vão passando. A árvore agora é artificial. As broas já não são feitas no forno a lenha. Aquele canto do sofá já não está ocupado. As luzes continuam a piscar ao ritmo das saudades que sinto de ti. Agora és tu que fazes falta aqui. Mais um lugar ocupado pela saudade e pela memória.

Brilha, brilha lá no céu!

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