Olho a minha árvore de Natal,
cheia de luzes de várias cores que piscam incessantemente, com bolas vermelhas
polidas, bolas vermelhas com motivos douradas, bolas vermelhas foscas, bolas
vermelhas rugosas, laços dourados, fita dourada e mesmo no topo a estrela que
dá vida a todo o verde artificial da árvore.
Noutros tempos íamos de podoa na
mão escolher a melhor árvore. Não podia ser muito grande, nem muito pequena e
os ramos não podiam ser muito assimétricos. Colocava-se dentro de um balde
cheio de areia que depois era forrado a papel. Acho que ainda sinto o cheiro do
pinheiro misturado na areia e o papel meio húmido de estar guardado há um bom
tempo. Os ramos eram enfeitados com luzes, duas ou três gambiarras com
diferentes formas, de diferentes cores que se fundiam de uns anos para os
outros e substituíam-se à última da hora. Havia bolas de várias cores, estrelas,
bonecos e mais o que se achasse engraçado… também havia chocolates, mas não
duravam até ao Natal. Por fim colocavam-se as fitas coloridas que se espalhavam
por todo o lado. Colavam-se botas e fitas nas paredes subindo às cadeiras e
como que se sentia já o cheirinho das filhoses, das rabanadas e já se
vislumbrava o alguidar gigantesco em cima da mesa de pedra cheio de massa
alaranjada escaldada pela água. E partiam-se as nozes e escolhiam-se os pinhões
e as passas e a lareira estava sempre acesa e a chama aquecia os corações e
amolecia os humores.
As prendas já tinham chegado. Sabíamos
bem. Corríamos a casa numa caça ao tesouro desenfreada. Quase sempre o
encontrávamos estragando a surpresa do dia. Mas recordo uma boneca, talvez, numa
caixa grande (o que eu queria era bonecas em caixas rosa e grandes) em cima do
fogão a lenha, numa casa que já nem me recordo bem como era. Recordo a pulseira
numa caixinha aprumada e muito requintada (até poderia não ser, mas para mim era assim),
recordo a boneca de pano azul….
São muitas as memórias que o
tempo apagou e que gostaria de ter guardado na minha caixinha da vida, para
poderem ser revividas uma e outra vez. Ficam-me os cheiros, as vozes, as cores,
os sabores… e fica aqui bem guardado, aqui neste canto, uma memória que
resistirá à borracha implacável do tempo. Aquele olhar terno e sofredor de quem
perdeu um filho, mas que está grato por ver a restante família a comemorar mais
um Natal. Havia sempre uma lágrima teimosa que nos lembrava que faltava ali
alguém. Aquela mãe nunca esquecia, nem nunca escondia, aquela dor agonizante de
passar um Natal sem uma das suas crias.
Os Natais vão passando. A árvore agora é
artificial. As broas já não são feitas no forno a lenha. Aquele canto do sofá
já não está ocupado. As luzes continuam a piscar ao ritmo das saudades que
sinto de ti. Agora és tu que fazes falta aqui. Mais um lugar ocupado pela
saudade e pela memória.
Brilha, brilha lá no céu!
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