Abriu a janela. Lá fora a neblina
matinal cobria o jardim, as árvores, as casas. Ouviam-se vozes, carros,
movimento, mas não se via ninguém. Apenas uma névoa acompanhada de uma morrinha
chata, húmida e fria. O olhar parou. Na mente não havia nada. Apenas uma névoa,
uns rasgos da noite anterior. Teria sido apenas um sonho? Passou a mão pelo
rosto, num gesto cansado, atordoado, isolado e acima de tudo perdido. O frio e
a humidade infiltravam-se no seu corpo esmorecido. Sentia arrepios. Voltou para
a cama. Talvez se dormisse mais um pouco o nevoeiro passasse. Talvez acordasse
e tudo estivesse na mesma, talvez nada tivesse mudado. O corpo enrolava-se no
cobertor e sentia um certo conforto. Mas flashes iam e vinham. Abriu os olhos fitando o branco do teto.
Tinha sido tudo tão rápido. Gravou
o rosto dela olhando para ele. Ali, naquele olhar morava o amor. Transbordava o
carinho e a amizade. Não eram necessárias as palavras. Estava ali o que ele
sempre procurara. Ela estava ali e era real e era dele. Encaixavam na
perfeição. Aquele olhar ficou preso no tempo. Aquele sorriso gritava um amo-te ensurdecedor
que ainda ecoava nos seus ouvidos. Isso e o estrondo que houve em seguida. E num
segundo o olhar dela ficou vazio.
O vazio daquele teto. O vazio do
olhar dela. Piscou os olhos. Não era esse olhar que queria recordar. Não. Queria
o outro. Temia esquece-lo.
Agora tudo é vazio.
Não faz sentido passar a vida a
odiar. Não faz sentido invejar. Não faz sentido arreliar. Não faz sentido
atormentar. Não faz sentido dificultar. Não faz sentido criar obstáculos. Não faz
sentido atirar palavras cravadas de ódios, de raiva, de sentimentos espicaçados
pelo momento, pelo tormento. Não faz sentido, porra.
Perdoar. Esquecer. Amar. Viver o
dia de hoje. Amar. Sorrir. Dar a outra face. Podemos não ser queridos de
alguns, mas somos amados por muitos.
Por esses muitos levantou-se da
cama. Sentiu que as mãos deles o puxavam para a vida. Saiu. Ali, ao seu lado
estavam os abraços sentidos, o carinho afetuoso e verdadeiro. Ali estava uma
luz e ele ia segui-la.
Mais tarde percebeu. O amor
faz-nos ver o dia. O amor dissipa as sombras que aparecem nas nossas vidas,
tornando-as imperceptíveis, insignificantes.
Sem comentários:
Enviar um comentário