quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ele


Abriu a janela. Lá fora a neblina matinal cobria o jardim, as árvores, as casas. Ouviam-se vozes, carros, movimento, mas não se via ninguém. Apenas uma névoa acompanhada de uma morrinha chata, húmida e fria. O olhar parou. Na mente não havia nada. Apenas uma névoa, uns rasgos da noite anterior. Teria sido apenas um sonho? Passou a mão pelo rosto, num gesto cansado, atordoado, isolado e acima de tudo perdido. O frio e a humidade infiltravam-se no seu corpo esmorecido. Sentia arrepios. Voltou para a cama. Talvez se dormisse mais um pouco o nevoeiro passasse. Talvez acordasse e tudo estivesse na mesma, talvez nada tivesse mudado. O corpo enrolava-se no cobertor e sentia um certo conforto. Mas flashes iam e vinham.  Abriu os olhos fitando o branco do teto.

Tinha sido tudo tão rápido. Gravou o rosto dela olhando para ele. Ali, naquele olhar morava o amor. Transbordava o carinho e a amizade. Não eram necessárias as palavras. Estava ali o que ele sempre procurara. Ela estava ali e era real e era dele. Encaixavam na perfeição. Aquele olhar ficou preso no tempo. Aquele sorriso gritava um amo-te ensurdecedor que ainda ecoava nos seus ouvidos. Isso e o estrondo que houve em seguida. E num segundo o olhar dela ficou vazio.

O vazio daquele teto. O vazio do olhar dela. Piscou os olhos. Não era esse olhar que queria recordar. Não. Queria o outro. Temia esquece-lo.


Agora tudo é vazio.

Não faz sentido passar a vida a odiar. Não faz sentido invejar. Não faz sentido arreliar. Não faz sentido atormentar. Não faz sentido dificultar. Não faz sentido criar obstáculos. Não faz sentido atirar palavras cravadas de ódios, de raiva, de sentimentos espicaçados pelo momento, pelo tormento. Não faz sentido, porra.

Perdoar. Esquecer. Amar. Viver o dia de hoje. Amar. Sorrir. Dar a outra face. Podemos não ser queridos de alguns, mas somos amados por muitos.


Por esses muitos levantou-se da cama. Sentiu que as mãos deles o puxavam para a vida. Saiu. Ali, ao seu lado estavam os abraços sentidos, o carinho afetuoso e verdadeiro. Ali estava uma luz e ele ia segui-la.


Mais tarde percebeu. O amor faz-nos ver o dia. O amor dissipa as sombras que aparecem nas nossas vidas, tornando-as imperceptíveis,  insignificantes.

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