Estava deitada na minha cama,
enroscada no meu lençol, respirando serenamente sobre a dócil almofada com o ar
pacífico de quem descansa após um dia agitado.
Os meus olhos abriram-se. Sentei-me
na cama e senti que me agarravam pelo dedo indicador. Não conseguia ver quem
era, parecia um ponto de luz azulado e no ar havia um perfume adocicado que me
fazia sentir tão tranquila. Não sei como, deparei-me com uma porta grossa de
madeira envelhecida pelo tempo, trancada por um ferro bem grosso que parecia
pesar toneladas. Mas aquela luzinha pequenina moveu a tranca da porta e
disse-me numa voz inesperadamente firme e melodiosa:
- Agora já não podes voltar
atrás, vais entrar no mundo dos teus sonhos.
A luz sumiu-se no ar e por
momentos não consegui ver nada. Esfreguei os olhos com a mesma moleza com que
uma criança esfrega os seus com o sono. Quando as minhas mãos abandonaram o meu
rosto, caíram pesadamente e surgiu a surpresa. À minha frente havia um tapete
de rosas vermelhas, arbustos verdes vivos, pássaros de todas as cores dando
vida e música aquele lugar, as borboletas como que brincavam ao meu redor, e as
flores pareciam abrir-se há medida que os meus pés se dirigiam até a um lago resplandecente
que me convidada a sentar à sua beira.
Sentei-me na areia mais fina e
mais macia que tinha tocado, enterrei os meus pés descalços e apoiei o rosto
nas minhas mãos. Não conseguia pensar em nada. Fechei os olhos e ouvia o
pássaro harmonioso, o som do peixe a nadar na água, o vento que suavemente
batia nas folhas, o som das asas das borboletas… já não sentia o peso do meu
rosto… estava tão leve.
Ouvi então algo diferente. Um pst
pst que parecia vir de muito longe. Abri os meus olhos. Já não havia corpo, só
a essência, não havia medo, não havia desconfortos, desconfianças, sentimentos
que nos angustiam e que nos impedem de ver claramente. Havia o chiar do brinquedo,
o riso da criança, a simplicidade do sorriso, a força para acreditar, o desejo
concretizado.
Senti o meu corpo novamente. Agitava-se
na cama, dava risos sonoros, e os meus olhos abriram-se. Ali estava eu. Sentada
na cama, de sorriso na cara, um sorriso tolo de quem está feliz, o sorriso tolo
de quem entendeu.
O nosso mundo dos sonhos está
aqui dentro de nós. Basta saltarmos lá para dentro, de coração aberto e com
sentimento puros. De lá sairemos mais ricos e conseguiremos alcançar o
desejado. Dar o que temos de bom e deixar que alguém nos guie, vamos?
Sem comentários:
Enviar um comentário