Se há perfeição no mundo? Não.
Queremos o amor perfeito. E durante um tempo tudo é
perfeito. No nosso mundo tudo é lindo, tudo é belo, todas as palavras são
deliciosamente doces, todos os beijos sensualmente amorangados. Todos os toques
arrepiam, todos os dias são de sol, todos os suspiros exalam sorrisos. Ou não. Passado
um tempo os olhos descolam-se. Aos poucos as palavras são um tanto ou quanto
amargas, os beijos apenas um toque de lábios frio e esquivo… os toques são
banais, os dias são de trovoada e suspiram-se lágrimas tristes da desilusão.
Depois queremos amigos perfeitos. Há os risos, as
loucuras, as trocas de mensagens, os longos telefonemas. Há as longas confidências.
As compras, os cinemas, as gargalhadas sonoras, os passeios de bicicleta, a pé,
de carro, na praia. As mais loucas férias, a doideira do fim de ano. Os primeiros
copos, as primeiras passas. Depois os olhos voltam a desapegar-se. E há a
traição, a falta de lealdade, o ciúme, a falta de transparência… e sente-se a ausência
e nada volta ao que era…
Queremos a família perfeita. Os miminhos, os
beijinhos, as prendinhas, as comprinhas. E um dia vemos outra coisa. As exigências,
a falta de confiança, as discussões sem fim, as portas que batem, as lágrimas
que caem, a vontade de fugir e não mais voltar, o ódio amargo de nada poder
fazer…
Se há perfeição no mundo?
O amor perfeito? Que amor há que seja perfeito? Soltam-se
as tempestades, as trovoadas, a chuva, os ventos fortes, mas lá está a chama. De
olhos bem abertos sabemos do que é feito o amor. De dias docemente solarengos,
de gelados partilhados à beira mar e de gritos que ensurdecem e de palavras
vomitadas pela raiva que nos controla.
Amigos perfeitos? Sim, depois de tudo ser
transparente, de tudo ser honestamente discutido, de abrirmos as portas da
nossa alma, de aceitarmos o que somos, como nos comportamos, se o amigo ficar é
nosso amigo. Será perfeito?
A família perfeita? Berra-se, discute-se entra-se
num desacordo sem fim… mas quando o mundo nos escapa debaixo dos pés, são eles
que nos dão a mão para nos levantar. São eles que lutam em silêncio, que rezam a
um Deus que não acreditam só para que tudo corra bem.
Se há perfeição?
Há a perfeição de sermos imperfeitos e de
aceitarmos isso. Somos o que somos. Cada um dá aquilo que tem, cada um coloca o
seu dom a render. Haverá sempre tempestades, mas teremos sempre aqueles dias de
brisa suave que nos inspira a sermos sempre melhores. Afinal, se fossemos
perfeitos que piada haveria nisso?
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