quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Silvina

Hoje queria falar-vos de alguém muito especial. Não ganhou nenhum prémio nobel, não pertence a nenhum partido político, não é cantora que se conheça, não é artista de novela, não é acrobata de circo, não é médica reconhecida, nem a professora da aldeia.
Está quase nos setenta. Os cabelos brancos e as rugas no rosto são marcas de uma vida de luta, uma vida de trabalho. Nunca teve facilidades. Aos treze já trabalhava, aos 32 casava, aos 33 primeira filha….momentos muito difíceis entretanto… dores de mãe, difíceis de falar, difíceis de expor… aos 40… bem aos 40… aos 40 desabou o céu e o chão fugiu-lhe dos pés e agarrada aos dois filhos entrou num abismo de uma viuvez, de um recém nascido, de uma casa nova, de uma reviravolta estranha, surreal…. Mas agarrou-se a qualquer coisa, aos filhos? Ao sentido que a vida fazia para si? A tudo? A nada? E construiu um caminho novo, derrubou barreiras, medos, arregaçou as mangas e semeou na terra aquilo que mais tarde queria colher.
Não tem ternura nos olhos (a não ser quando vê as netas) porque a vida não lhe mostrou a ternura, não tem palavras meigas e gentis na boca, porque a vida a ensinou de que pouco valem em situações limite, não tem amigas para tomar chá, não vai à ginástica, não socializa muito. Vive semeando. Vive dando o apoio de estar presente junto dos que envelhecem, mostrando disponibilidade e dois dedos de conversa corriqueira. Vive para a família que precisa dela.
Não sei se acredita na amizade, nem sei se acredita no amor desmedido e cego. Acredita no que vê, nas intuições que tem, no trabalho das suas mãos. Nunca criou expetativas sobre nada, muito pelo contrário, mais depressa via o erro, o mal, a desconfiança. Silenciosamente celebrava as vitórias dela e dos filhos… nunca ouvi um elogio, nunca senti uma palmada no ombro… mas vi o brilho no olhar, a verdade das palavras, a análise fria das coisas.
Se há um herói na minha vida, é ela. Ela, sempre fiel aos seus princípios, sempre à altura das situações, sempre de mangas arregaçadas.

Mãe, a maior lição que me deste foi a definição da palavra humildade através do teu exemplo.

2 comentários:

  1. Há uma altura em que conseguimos ver para além da aparência e felizmente a idade e as experiências dão-nos esse dom. Por várias razões (algumas que não escreveste) fico contente por ler este texto (chorei) sobre a tua mãe e por a compreenderes para além do que ela deixa revelar. A vida é curta, mas nunca é tarde para voltar a sorrir, talvez a tua mãe o consiga fazer agora, olhando para trás, olhando para o presente e sorrindo para o futuro que ainda há-de vir. Beijinhos e sejam felizes, em família.

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  2. Há uma altura em que conseguimos ver para além da aparência e felizmente a idade e as experiências dão-nos esse dom. Por várias razões (algumas que não escreveste) fico contente por ler este texto (chorei) sobre a tua mãe e por a compreenderes para além do que ela deixa revelar. A vida é curta, mas nunca é tarde para voltar a sorrir, talvez a tua mãe o consiga fazer agora, olhando para trás, olhando para o presente e sorrindo para o futuro que ainda há-de vir. Beijinhos e sejam felizes, em família.

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