Hoje queria falar-vos de alguém
muito especial. Não ganhou nenhum prémio nobel, não pertence a nenhum partido
político, não é cantora que se conheça, não é artista de novela, não é acrobata
de circo, não é médica reconhecida, nem a professora da aldeia.
Está quase nos setenta. Os cabelos
brancos e as rugas no rosto são marcas de uma vida de luta, uma vida de
trabalho. Nunca teve facilidades. Aos treze já trabalhava, aos 32 casava, aos
33 primeira filha….momentos muito difíceis entretanto… dores de mãe, difíceis de
falar, difíceis de expor… aos 40… bem aos 40… aos 40 desabou o céu e o chão
fugiu-lhe dos pés e agarrada aos dois filhos entrou num abismo de uma viuvez,
de um recém nascido, de uma casa nova, de uma reviravolta estranha, surreal…. Mas
agarrou-se a qualquer coisa, aos filhos? Ao sentido que a vida fazia para si? A
tudo? A nada? E construiu um caminho novo, derrubou barreiras, medos, arregaçou
as mangas e semeou na terra aquilo que mais tarde queria colher.
Não tem ternura nos olhos (a não
ser quando vê as netas) porque a vida não lhe mostrou a ternura, não tem
palavras meigas e gentis na boca, porque a vida a ensinou de que pouco valem em
situações limite, não tem amigas para tomar chá, não vai à ginástica, não
socializa muito. Vive semeando. Vive dando o apoio de estar presente junto dos
que envelhecem, mostrando disponibilidade e dois dedos de conversa corriqueira.
Vive para a família que precisa dela.
Não sei se acredita na amizade,
nem sei se acredita no amor desmedido e cego. Acredita no que vê, nas intuições
que tem, no trabalho das suas mãos. Nunca criou expetativas sobre nada, muito
pelo contrário, mais depressa via o erro, o mal, a desconfiança. Silenciosamente
celebrava as vitórias dela e dos filhos… nunca ouvi um elogio, nunca senti uma
palmada no ombro… mas vi o brilho no olhar, a verdade das palavras, a análise
fria das coisas.
Se há um herói na minha vida, é
ela. Ela, sempre fiel aos seus princípios, sempre à altura das situações,
sempre de mangas arregaçadas.
Mãe, a maior lição que me deste
foi a definição da palavra humildade através do teu exemplo.
Há uma altura em que conseguimos ver para além da aparência e felizmente a idade e as experiências dão-nos esse dom. Por várias razões (algumas que não escreveste) fico contente por ler este texto (chorei) sobre a tua mãe e por a compreenderes para além do que ela deixa revelar. A vida é curta, mas nunca é tarde para voltar a sorrir, talvez a tua mãe o consiga fazer agora, olhando para trás, olhando para o presente e sorrindo para o futuro que ainda há-de vir. Beijinhos e sejam felizes, em família.
ResponderEliminarHá uma altura em que conseguimos ver para além da aparência e felizmente a idade e as experiências dão-nos esse dom. Por várias razões (algumas que não escreveste) fico contente por ler este texto (chorei) sobre a tua mãe e por a compreenderes para além do que ela deixa revelar. A vida é curta, mas nunca é tarde para voltar a sorrir, talvez a tua mãe o consiga fazer agora, olhando para trás, olhando para o presente e sorrindo para o futuro que ainda há-de vir. Beijinhos e sejam felizes, em família.
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