domingo, 1 de novembro de 2015

O mundo continua a girar

O mundo continua a girar, o sol continua a brilhar e a noite permanece escura, tal e qual como ontem e o dia antes desse e todos os dias anteriores.
As pessoas surgem nos cafés, apressadas, desorientadas, sem pressa alguma. Umas trazem o recado gravado na cabeça daquilo que querem comprar mas é esquecido quando de rompante entra o pensamento das tarefas por concluir, o esquecimento de um encontro, o bom dia do vizinho que parece abatido. Outras procuram o amigo que não veem há meses, os olhos percorrem outros olhos, cabelos, roupas até que param e sorriem com o descanso de quem finalmente não está perdido. Outras ainda vêm na procura de aconchego, de companhia. Outras de tema de conversa banal. Outras procuram apenas o silêncio no barulho dos outros.
À rua saem as que trabalham, as que levam os filhos ao infantário, as que se dirigem ao hospital, as que vão caminhar à beira mar, as que vão tratar de assuntos, as que não têm nada para fazer mas saem na mesma, as que vão caminhar, as que vão às compras por necessidade, as que vão às compras por ócio. Trocam-se bons dias, boas tardes, boas noites, trocam-se olhares, sorrisos sinceros e esgares de gozo… Não se diz nada. A mente vai ocupada e os olhos vão cegos.
Nos carros circulam as mães que estão atrasadas para a reunião, os pais que vão buscar o filho doente à escola, os avós que têm de ficar com os netos, o patrão que vai despedir os seus empregados, o empregado que se quer despedir, o desempregado que vai ao centro de emprego por obrigação. Vai ainda o homem que tira macacos do nariz enquanto pensa que se esqueceu de alguma coisa em casa, a mulher que tenta colocar rímel com uma mão enquanto a outra controla o volante, o desorientado que não sabe bem para que lado ir da estrada mas também não importa porque a algum lado há de ir ter.
Nas casas há luzes, há o homem que cozinha saboreando os cheiros do refugado, as crianças que brincam na sala, a voz que envia a mensagem de que é preciso tomar banho, lavar dentes, fazer trabalhos de casa, arrumar tudo, por as toalhas a secar, escolher a roupa para o dia seguinte. Há uma mulher que está só, de copo vazio na mão olhando as luzes da rua perdida nos pensamentos e na vida. Há o casal que já não fala, só berra. Há o adolescente irritado, enraivecido que coloca a roupa numa mala. Há o desesperado que engole uns quantos comprimidos para esquecer que existe por umas valentes horas. Há os que festejam mais um aniversário, há os que choram a morte inesperada do filho.
O mundo continua a girar enquanto estou sentada aqui neste lugar, de manta nos joelhos a pensar que por uns tempos queria parar o mundo.

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